segunda-feira, 5 de maio de 2014

O legado de Sheherazade

04/02 – Rapaz menor acusado de roubo é amarrado com trava de bicicleta em poste no Flamengo, RJ/RJ por moradores “justiceiros”.
Nessa mesma noite a jornalista Rachel Sheherazade do telejornal SBT Brasil, ao comentar esta notícia em horário nobre e com alcance em todo o Brasil, apoia a ação do grupo de justiceiros, dizendo que “a atitude dos vingadores é até compreensível”. Ela incita a população brasileira à violência, estimulando a multiplicação dessa prática que, segundo a lei, é crime. Ela diz: “o que resta ao cidadão de bem que foi, ainda por cima, desarmado ? se defender, é claro. O ataque aos bandidos é o que eu chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite”. Além de criticar a fragilidade do Estado democrático de direito brasileiro em sua principal função que é garantir a segurança dos cidadãos segundo a lei, ela ataca os grupos de direitos humanos que combatem a violação dos direitos humanos através apenas da defesa do cumprimento da lei. Lei esta que garante a proteção a todo cidadão – como eu e você – que seja suspeito e acusado de ter cometido qualquer delito, e que seja preso, julgado e punido na forma da lei exclusivamente pelo Estado. Ela diz o seguinte: “e aos defensores dos direitos humanos que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste eu lanço uma campanha; faça um favor ao Brasil: adote um bandido”. O próprio uso do termo “marginalzinho” pela jornalista expressa uma arrogância, prepotência e preconceito típicos dos piores regimes fascistas.
06/02 – Igor Oliveira Falcão, acusado de roubo, é assassinado com 3 tiros à queima roupa por bando de justiceiros armados na Baixada Fluminense, Belford Roxo, RJ/RJ.
Nessa mesma noite a jornalista retrata-se no mesmo telejornal no mesmo horário nobre. Diz  “eu sou uma pessoa do bem” e “defendo as pessoas de bem nesse país”. No entanto, confirma que “todo cidadão tem o direito de prender um ´meliante´ flagrado em delito”.
13/02 – Suspeito de roubo foi amarrado a um poste e quase linchado por população em Itajaí/SC
17/02 – A milícia popular autointitulada “Apoio Policial” captura um menor suspeito de roubo, amarra-o, joga-o sobre um formigueiro e posta o vídeo da tortura na internet, em Teresina/PI
21/02 – Wancleir Barbosa Bezerra, suspeito de roubo foi capturado pela população, teve os testículos e o pênis amarrados por um cordão e foi torturado e espancado até desmaiar, em Natal/RN.
23/02 – Motorista foi espancado e quase linchado pela população, tendo o carro depredado após atropelar três foliões em bloco de carnaval na V. Madalena em São Paulo/SP. Os foliões tiveram ferimentos leves.
27/02 – Marcelo Pereira da Silva de 31 anos foi assassinado por grupo de justiceiros que invadiram sua casa após ter sido acusado de ter estuprado as três enteadas. As meninas confessaram ter mentido sobre o caso; levantaram falso testemunho contra o padrasto em represália após ele tê-las repreendido duramente por causa de uma travessura, em Vila Velha/ES.
06/03 – Menina de 14 anos tem o dedo quase amputado por membros de uma família, donos de um bar, o qual a menina supostamente teria assaltado, em Várzea Paulista/SP.
12/03 – Homem suspeito de furto foi amarrado e espancado pela população. Levado à delegacia, constatou-se que foi confundido com o verdadeiro ladrão, que fugiu, em Natal/RN
25/03 – Homem é amarrado a um poste após ter sido acusado de roubo. Libertado, foi até à delegacia e registrou queixa por agressão.
31/03 – A Procuradoria Geral da República aceitou a denúncia feita pela Deputada federal Jandira Feghali (PCdoB) contra Rachel Sheherazade e o SBT por crime de apologia e incitamento à tortura e ao linchamento, previsto no artigo 287 do Código Penal. Além disso a denúncia prevê o cancelamento da verba publicitária no contrato do governo com o SBT (de R$ 150 milhões) além da revisão da concessão da emissora, o que pode levar a retirada da emissora do ar.    
Nesse Mesmo dia a jornalista Rachel Sheherazade deixa de apresentar o jornal SBT Brasil por motivo de férias antecipadas em função de sua presença na cobertura jornalística da Copa em Junho próximo.
10/04 – Rapaz menor, suspeito de furto foi capturado e amarrado pela população até a chegada da polícia, em Nova Lima, Belo Horizonte/MG.
14/04 – Rachel Sheherazade volta ao comando do jornal SBT Brasil . No entanto, nem ela nem nenhum jornalista da emissora não poderão dar sua opinião em notícias; devem apenas dar a notícia. A partir desta data, todas as opiniões dos jornais da emissora serão feitas em forma de editorial, identificados como tal com uma tarja na tela. 
17/04 – Mulher suspeita de roubo é espancada até desmaiar por homem em um ponto de ônibus em movimentada avenida no RJ/RJ.
22/04 – Rapaz menor, acusado de prática de furtos na região foi amarrado de cueca a um poste por populares e açoitado, em Ipatinga/MG.  
05/05 - Confundida com uma sequestradora de crianças cuja foto foi publicada no site "Guarujá alerta", Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos morreu após ter sido linchada por populares no Guarujá/SP. O site alega que presta um serviço à sociedade, colaborando com a polícia na identificação e captura de bandidos.  

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DECRETO-LEI No 2.848, DE 7 DE DEZEMBRO DE 1940 – CÓDIGO PENAL
Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem
Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem
Pena - detenção, de três meses a um ano.
Art. 137 - Participar de rixa, salvo para separar os contendores:
Pena - detenção, de quinze dias a dois meses, ou multa.
Parágrafo único - Se ocorre morte ou lesão corporal de natureza grave, aplica-se, pelo fato da participação na rixa, a pena de detenção, de seis meses a dois anos.
Art. 148 - Privar alguém de sua liberdade, mediante seqüestro ou cárcere privado
Pena - reclusão, de um a três anos.
§ 1º - A pena é de reclusão, de dois a cinco anos:
IV - se o crime é praticado contra menor de 18 (dezoito) anos;
§ 2º - Se resulta à vítima, em razão de maus-tratos ou da natureza da detenção, grave sofrimento físico ou moral.
Pena - reclusão, de dois a oito anos.

Art. 286 - Incitar, publicamente, a prática de crime:
Pena - detenção, de 3 (três) a 6 (seis) meses, ou multa.
Art. 287 - Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime:

Pena - detenção, de três a seis meses, ou multa.
Art. 288.  Associarem-se 3 (três) ou mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes:   
Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos.
Art. 288-A. Constituir, organizar, integrar, manter ou custear organização paramilitar, milícia particular, grupo ou esquadrão com a finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos neste Código:
Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos.


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quinta-feira, 20 de março de 2014

DIREITA x ESQUERDA: em qual time você joga ?


Nestes tempos confusos, onde vemos de um lado jovens depredando ônibus e portas de bancos e de outro, pais de família clamando por um golpe militar para “restaurar a ordem”, façamos um exercício saudável para aclarar (ou não) nossa posição política. Direita x esquerda: em qual time eu jogo ?      

Esquerda / progressista / revolucionário
Direita / conservador / reacionário
Ideais democráticos, liberdade, igualdade e fraternidade. Privilegia a dimensão política da liberdade e não acredita no liberalismo econômico.
Liberdade econômica acima de tudo, inclusive acima da própria liberdade política (defesa da ditadura em oposição à democracia desde que a liberdade econômica seja garantida)
O ser humano é naturalmente bom (solidário e cooperativo), a sociedade é que o corrompe.
O ser humano é naturalmente mau (egoísta e imutável), “pau que nasce torto nunca se endireita “
+ Educação (+ escolas, + salário aos professores)
+ Punição (+ cadeias, pena de morte, redução da maioridade penal)
Privilegiam o coletivo
Privilegiam o individual
Igualdade (todos devem ter as mesmas oportunidades)
Meritocracia (a cada um segundo sua capacidade e esforço)
Eliminar as desigualdades
Desigualdades são naturais
Guiado mais pelas emoções
Guiado mais pela razão
Cooperação, solidariedade
Competição, mérito
O Estado é o regulador da sociedade
O mercado é o regulador da sociedade
Estado forte
Consumidores e sociedade civil fortes
O Estado deve proteger o pobre e distribuir as riquezas e o poder
O Estado não deve sufocar a livre iniciativa, o empreendedorismo e a busca pela felicidade.  
Mais impostos para mais programas sociais
Menos impostos e menos programas sociais
Mudança
Tradição
Ser é mais que ter (deixar uma herança cultural para os filhos é mais importante que a herança material)
Herança material, propriedade, família (ter, possuir propriedades e as manter na família)
Acredita e pratica os princípios religiosos (caridade, solidariedade) mas não acredita segue formalmente nenhuma religião.
Pratica formalmente uma religião, mas não acredita nos princípios da caridade, solidariedade, cooperação e igualdade.
Drogas: liberar, pois o indivíduo deve ser educado para decidir se usa drogas ou não
Drogas: criminalizar, pois destrói a sociedade.
Armas: proibir, pois não podemos fazer justiça com as próprias mãos, isso é dever do Estado, caso contrário viveremos na barbárie.
Armas: liberar, pois o “cidadão de bem” tem o direito de se defender num Estado ineficiente e com uma polícia corrupta.
Homossexuais: todos são livres para optar sobre sua sexualidade
Homossexuais: aberração da natureza, pecado mortal.
Aborto: a mulher deve ter garantido o direito sobre seu próprio corpo
Aborto: crime igual a um assassinato. Pecado mortal.
Migrantes ou estrangeiros são bem-vindos pois tem direitos iguais além de suprir carências específicas (ex: migrantes nordestinos em SP, médicos cubanos)
Migrantes ou estrangeiros causam problemas para a cidade, superlotação, trânsito, habitação; causam também competição desleal, “roubando” nossos empregos.

Para saber mais (e dar um pouco de risada):

Para saber mais (agora é sério):
BOBBIO, Norberto, Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política, SP, Ed. Unesp, 1995.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

E agora José ?

“Repeti inúmeras vezes que vamos à escola para adquirir habilidades acadêmicas e profissionais, ambas muito importantes. Na década de 1970, quando eu frequentava o segundo grau, se alguém fosse bem-sucedido academicamente, quase imediatamente imaginava-se que esse estudante brilhante se tornaria um médico. Muitas vezes nem se perguntava se o jovem desejava ser médico. Era uma pressuposição. Era a profissão que prometia a maior recompensa financeira. Hoje, os médicos enfrentam dificuldades financeiras que não desejaria a meus piores inimigos: seguradoras controlando os negócios, cuidados de saúde administrados, intervenção governamental e processos por erro médico, para mencionar algumas. E a garotada quer ser estrela do basquete, jogador de golfe como Tiger Woods, gênio da computação, estrela do cinema, roqueiro, rainha de beleza ou corretor de Wall Street. Isso ocorre, simplesmente, porque é aí que estão a fama, o dinheiro e o prestígio. Eis o motivo por que é tão difícil motivar a garotada na escola. Eles sabem que o sucesso profissional já não depende apenas do sucesso acadêmico como em outros tempos.”
KlYOSAKI, Robert T, Pai rico, pai pobre, Ed. Campus, 21ª ed.
(Robert Kiyosaki é PhD em Finanças, New York University,

Professor e Díretor do PDG/IBMEC Business School)


Se nossos jovens não se interessam em aprender, não temos condições de ensinar. Se o estudante não estuda e se não há ensino sem aprendizagem, como é que o professor ensina ? Não ensina pois o aluno não aprende. Ou melhor, seguem ensinando, forçados pelas diversas contingências e violências às quais são submetidos. Mas o aluno segue não aprendendo. Ou melhor, não aprende o que - ou o quanto - deveria aprender, haja visto o péssimo desempenho escolar dos estudantes brasileiros, demonstrado pelos números absolutamente ridículos das avaliações externas. 
Não existe espaço para tantos Tiger Woods, Michael Jacksons, Beyoncés, Messis e até mesmo Bill Gates; casos de "sucesso" individual e elevados a ícones da meritocracia, competição e do próprio capitalismo. Mas... temos que importar médicos e engenheiros para cuidar de nós mesmos em nossa miséria e ignorância. Até mesmo para serem contratados como vendedores de loja nossos jovens egressos do ensino médio encontram dificuldades. A Apple está tentando, há meses e sem sucesso, preencher as inúmeras vagas para poder inaugurar sua Apple store no Rio de Janeiro, ainda antes da Copa. Já está tudo pronto, só faltam os profissionais. E não consegue preencher as vagas com jovens brasileiros... 
Enquanto isso, a cada ano são despejadas nas ruas, hordas de seres humanos sem o menor preparo profissional, sequer com educação básica. E essa horda está indo para debaixo do tapete, engrossando as filas do desemprego juvenil que já é maior do que o desemprego em qualquer outra faixa etária. Um fato social absurdamente inédito. E esse acúmulo sob o tapete está criando um calombo que, alimentado pela omissão e pelos discursos inócuos, a qualquer momento, invariavelmente, irá provocar o tropeço dos despreocupados transeuntes a caminho do Shopping ou do aeroporto. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Competência, ambivalência e modernidade em Bauman

Fichamento: 
MODERNIDADE E AMBIVALÊNCIA 
Zygmunt Bauman
meus comentários em verde.
por Márcio L. Rangon

“A ambivalência, possibilidade de conferir a um objeto ou evento mais de uma categoria, é uma desordem específica da linguagem, uma falha da função normativa (segregadora) que a linguagem deve desempenhar. O principal sintoma de desordem é o agudo desconforto que sentimos quando somos incapazes de ler adequadamente a situação e optar entre ações alternativas.
É por causa da ansiedade que a acompanha e da consequente indecisão que experimentamos a ambivalência como desordem – ou culpamos a língua pela falta de precisão ou a nós mesmos por seu emprego incorreto. E no entanto a ambivalência não é produto da patologia da linguagem ou do discurso. É antes, um aspecto normal da prática linguística. Decorre de uma das principais funções da linguagem: a de nomear e classificar. Seu volume aumenta dependendo da eficiência com que essa função é desempenhada. A ambivalência é, portanto, o alter ego da linguagem e sua companheira permanente – com efeito, sua condição normal.
(...) A mudança produzida no mundo do homem moderno pela ascensão da competência especializada e a irrefreável tecnologização do ambiente humano foi radical e, com toda probabilidade, irreversível.  O mundo humano jamais será novamente como foi antes da ascensão da tecnologia. Se a mudança produz maior felicidade ou miséria mais funda é questão discutível e fadada a continuar a sê-lo. (...) A informação como valor mensurável divorciou-se – e emancipou-se – do  “conteúdo” semântico das declarações. (...) No seu decidido impulso para uma eficiência técnica maior, a competência especializada deve dissolver todas as “totalidades” – pois se concentra, ao contrário, nos seus segmentos acessíveis e controláveis. Essa perpétua tendência da competência especializada adquiriu recentemente uma formidável extensão (e um desvio potencialmente sinistro) com o advento da tecnologia da informação e particularmente das novas totalidades com a interconexão de amplas redes de computadores.  Para o desenvolvimento dessas totalidades, a espantosa especialização entranhada na produção de software, como toda competência técnica, só pode contribuir de maneira parcial. (...) Continuamente, novos fragmentos são acrescentados ao sistema total com pouco (se é que algum) conhecimento do seu impacto no conjunto de programas introduzidos antes. Apesar de (ou por?) ser um produto altamente artificial, feito pelo homem, o sistema computacional desenvolve-se mesmo assim de uma forma espontânea, descontrolada, como que natural, de modo que ninguém é capaz de supervisionar o efeito total. (...) Os maiores sistemas de software crescem de modo descontrolado, cada vez mais incompreensível. Se surge um problema, uma nova peça do programa é escrita num “arranjo” tecnológico imediato, que pode resolver o problema a curto prazo mas cujos efeitos a longo prazo nos programas estabelecidos são desconhecidos e totalmente imprevisíveis. Por isso os maiores sistemas de software evoluem de forma desorganizada, com alguns programadores entendendo fragmentos aqui e acolá, mas ninguém entendendo o sistema como um todo. (...)”
{E essa condição leva à consequência da maximização da flutuação da responsabilidade pelo resultado final da ação.  Todos tem a máxima competência técnica e especializada sobre o produto específico de seu fragmento do conhecimento. No entanto, ninguém tem a competência - e portanto, a responsabilidade objetiva e subjetiva - sobre o produto final do sistema, seus resultados e impactos}.
 “O advento dos sistemas de computador apenas deu novo impulso a uma velha e permanente tendência da especialização tecnicamente orientada – e possibilitou que se desenvolvesse numa escala sem precedentes e até então inconcebível. A competência especializada só é exercida de forma adequada se as consequências sistêmicas do desempenho orientado pelos problemas se perdem de vista ou são deliberadamente postas de lado. (...) Antes da era do computador, eram outros especialistas que lidavam com os efeitos colaterais das práticas especializadas; sempre havia uma pessoa identificável por trás de cada ação. Podia-se discutir interminavelmente o grau efetivo de responsabilidade de cada pessoa e qual das muitas ações interligadas era a causa decisiva de um dado efeito. A discussão podia, porém, ser levada em termos pessoais. Foi essa possibilidade que o advento dos sistemas computacionais simplesmente eliminou. (...)
As instituições socialmente geradas para combater a ambivalência individual tornaram-se os principais mecanismos para manter vivo, reanimar e fortalecer o próprio fenômeno que definiam como a mais sinistra das perdições da vida, o próprio fenômeno cuja eliminação definitiva era declarada como a razão de ser dessas instituições. Elas geram mais ambivalência do que subjugam e desse novo efeito extraem a energia de que precisam para gerar ainda mais ambivalência e a legitimação para continuarem sua ação...
A soma total da ambivalência parece crescer irrefreavelmente. A ambivalência parece medrar dos próprios esforços para destruí-la, tornando cada vez mais distante e nebulosa a perspectiva original de um mundo ordeiro e racionalmente estruturado inscreito num sistema social igualmente ordeiro e racional. A ânsia instruída de escapar à “confusão” do mundo exacerbou a própria condição de que se queria escapar.”
 {A criação de um mundo livre de ambiguidade, fruto do racionalismo, fracassou. No entanto, também não será da ambivalência contemporânea que surgirá uma ordem racional e responsável.}
“ A sociedade moderna parece agora reconciliar-se lentamente à inelutável parcialidade das ordens que é capaz de construir – e assim à ausência de finalidade de qualquer projeto ordenador e à permanência e onipresença da ambivalência. Deve fazer o melhor da condição com a qual não está mais em guerra; para isso, no entanto, teria que renegar sua cruzada contra a ética e os valores “irracionais” em geral.”
         {A flutuação da responsabilidade aliada às externalidades econômicas (que são os efeitos colaterais de uma decisão sistêmica sobre aqueles que não participaram dela, como por exemplo, os impactos ambientais), geram um quadro sombrio onde todos concordam que  tem responsabilidades (culpa) sobre o sistema em geral, mas ninguém sabe realmente o que acontece a partir daquilo que faz, a partir de sua ação (ainda que competente) sobre um fragmento da realidade, embora tem a certeza, dada pela legitimação social de sua competência, de que faz aquele algo melhor do que qualquer um.}