quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Café (gourmet) com Marx

Ao lado da padaria da saida direita do metrô V Madalena há uma simpática padaria onde eu tomava café quando voltava do trabalho na época em que labutei na Paulista. E ao lado desta panificadora há hoje uma cafeteria cujo nome homenageia ninguém menos que Marx. Isso mesmo, o bom velhinho. Eu, como professor já há algumas décadas, egresso da então gloriosa Sociologia da então não menos gloriosa FFLCH/USP, tocado de saudosismo, fiquei curioso em visitar este notável estabelecimento, que também se autointitula livraria, galeria de exposições e brechó. No entanto, a vida corrida do cotidiano havia me tolhido consumar este singelo prazer, até hoje. Sim, até hoje, pois finalmente, ao dar uma carona até a referida estação do metrô, o meu poderoso companheiro, meu carro guerreiro, raro exemplar bem conservado da geração X, assim como eu, (na verdade, bem mais íntegro), simplesmente apagou e não quis mais funcionar. Aliás, parece que ele ficou com uma ponta de ciúme do piripaque semelhante que seu dono sofreu no começo desta semana, quando felizmente uma atenciosa Dra. da UPA Sorocabana me mandou goela abaixo dois comprimidinhos para aliviar a pressão, em alta ultimamente, aliás, sabe-se lá o por que... Pois bem, enquanto aguardava o socorro ao meu bom velhinho e companheiro geracional de quatro rodas, bem defronte à tal cafeteria do bom velhinho vermelho, senti um melancólico desejo, e percebi a rara oportunidade, de finalmente visitar o tal estabelecimento, principalmente ao avistar, após regular a mirada com minhas recentes multifocais, um cartaz na porta anunciando uma exposição sobre Rosa Luxemburgo. Uau! Que interessante! pensei. 

Mas ainda precisava aguardar o socorro chegar para então dar um pulinho ali naquele, que certamente, assim avaliei, seria um espaço cultural qualificado. Mas assim que a tarde caiu, tomei um baita susto quando dali começou a ser entoada, por meio de um verdadeiro paredão funkadélico, um som de reggae mixado com música indiana, creio eu. E quedei-me atônito quando então começou a chegar, de Uber, pessoinhas bem descoladas, todas Gen Z, todas outfit minimo de 10k cada (descontando os iPhones e acessórios necessários da maçã desejada, indispensáveis para o registro e compartilhamento da vidinha real no etéreo universo social digital). 

Estes seres humanos neohippies começaram a entrar e sair da casa com uma chávena de café nas mãos onde se via impresso o logotipo do estabelecimento; deliciavam-se no passeio público, embalados por grosseiras gargalhadas e altas conversas culturais, tais como: qual o melhor perfume masculino, Fakhar black ou YSL... também consegui ouvir (pelo volume das tagarelices, acho que conseguiria ouvir mesmo que estivesse na estação Sumaré) sobre viagens, de Machu Picchu a Petra e Dubai, além de vivenciar, estupefato, calorosas discussões filosóficas,  quiçá acadêmicas, sobre séries de TV streaming e Doramas. Na medida em que tal ambiente se formava, minha verve antropológica rogava por um pouco mais de atraso no socorro automotivo a fim de me proporcionar a possibilidade de experenciar este ethos exótico e evidentemente paradoxal, com o objetivo único de colher mais material de análise sociológica. Mas enquanto a tarde caia naquele microcosmo, caia também meu enlevo  em visitar a tal cafeteria, cujo objetivo primaz sopinha ser compartilhar saber sociológico e fazer novos amigos da classe (classe trabalhadora, frise-se bem!). Mas como já havia percebido claramente que não era o caso ali e como o socorro de fato demorou, fui ficando meio tonto com o aroma de café gourmet que emanava daquele pitoresco ambiente ao ar livre. Acho que era café gourmet ou talvez fosse dos Blacks ou Pode ou até mesmo de alguma outra planta mais exótica. Bem, mas isso não vem ao caso. Então, finalmente o socorro chegou, consertamos rapidamente o bom velhinho e - engolindo uma vontade louca de entrar naquele lugar e chutar todas aquelas mercadorias que fetichizavam os Zs presentes e conspurcavam o propósito real (ou ao menos, ideal) daquele point - eu fui pra casa tomar um chá de cidreira a fim de rebater tamanha tonteira (em todos os sentidos) a qual fui submetido naquele interregno.

Fim do relato. Tire suas próprias conclusões, caro leitor.

No entanto, não me furtarei a compartilhar as minhas próprias para você você que, se teve a paciência de chegar até aqui, demonstra um perfil daqueles que, como eu, preferem gastar seu tempo com algo aparentemente inútil como a leitura, em detrimento às atividades fúteis do cotidiano pequeno burguês. A você, portanto, agradeço e desde já me solidarizo gratuitamente, sem qualquer expectativa de contrapartida em likes, compartilhamentos ou qualquer coisa que o valha (tanto) nestas redes egocêntricas. 

Pois bem, então, já com o chazinho de cidreira  apurando na boa e velha caneca vermelha esmaltada, aproveitei para refletir sobre o dia e, primeiramente, confirmar minha teoria - ainda não aceita pelos bons e velhos companheiros da boa e velha esquerda, órfã, é claro, de que a causa operária está completamente perdida. 

Mas isso não é novidade. A novidade, para alguns, talvez seja a de que o discurso progressista daS esquerdaS (no sinistro  plural) é hoje uma verdadeira farsa (desculpe a antítese, mas é a força do hábito adquirido com sérias leituras jurássicas sobre o tema). Como eu ia dizendo, o discurso progressista, tão caro à esquerda (me recuso a usar o nefasto plural aqui) é uma farsa! posto que se insere no e se nutre do próprio sistema capitalista, conforme se afirma pelo breve relato da experiência antropológica compartilhada, notada e paradoxalmente antagônica.

Mas o mais aterrador nessa história toda é constatar, agora já sob os efeitos do segundo gole de chá quentinho, que sem opositor à altura, a extrema (e tresloucada) direita, inexoravelmente voltará ao poder neste país. E virá com muito mais força! pois de fato, não existe oposição à sua altura. 

Se a classe trabalhadora tiver que depender destaS novaS esquerdaS (agora sim, uso no plural a fim de enfatizar o autoengano deles), diversas, identitárias, festivas, com muitas "prerrogativas" (n.b) e descoladas - de fato, descoladas da realidade do povo, porém colada nos pêlos do escroto capitalista - para defender seus interesses... 

Ora, se nas próximas eleições o povo oprimido deste país (e bota oprimido nisso!) tiver que depender dessa esquerda mo(ça)dinha gen Z de boutique madalena pós moderna para fazer valer seus direitos... ah... o horror estará de volta, nao tenha dúvida. 

E não adianta cortar a cabeça da serpente. Ela é uma Hydra, pois sempre surgirá outra em seu lugar. O ovo da serpente foi chocado, eclodiu, a serpente feriu, matou, depois foi nocauteada e agora luta-se para mantê-la a ferros. Mas a chocadeira está quentinha, e é enorme, abrange metade do país e muitos outros ovos estão sendo chocados. Muitos! E para piorar, mais da metade do próprio povo oprimido está ajudando na chocadeira. 

Enquanto isso, as esquerdas (plural, again) brincam de ciranda da diversidade e registram estas açôes revolucionárias com as lindas selfies que só os seus ProMax conseguem capturar, nutrindo o autoengano de serem os portadores do bastião da neorevolução pacífica, dentro da ordem (capitalista).

Se nas últimas eleições a esquerda trabalhista conseguiu somente a duras penas, somente graças a alianças espúrias com representantes conservadores, - como o xuxu da cerca da direita - triunfar sobre um pateta mediocre, sem partido, neuro patológico e criminoso, nas próximas eleições a derrota dos trabalhadores, mesmo com altas "prerrogativas" (n.b. again!), será acachapante e o país fatalmente se quedará entregue à própria sorte. Ou melhor, ao nosso próprio azar. Ainda bem que Marx não está entre nós, pois certamente estaria muito, mas muito decepcionado. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

As fantásticas fábricas da aurora da minha vida


Quando criança eu, que tenho Leite no nome, passava em frente à fábrica da Petybon da Vila Romana com a minha avó para ir na casa da irmã dela, a Tia Nata - Fortunata de batismo, mas chamada carinhosamente de Nata e, curiosamente Nata como a nata de leite. Nessa caminhada, sempre tive vontade de comer os tijolos dessa parede, mas logo me continha, lembrando do que poderia acontecer com um garoto que ousasse violar a Fantástica fábrica de chocolate, como no sucesso televisivo da época, assistido à exaustão nas Sessões da Tarde de então. Tempos depois, como que numa profecia dada pelo meu nome lácteo, eu cresci e fui trabalhar na fábrica ao lado, passando todos os dias pelos tentadores tijolos encantados, mas agora já despido da inocência infantil. Eu ganhava a vida nesta vizinha fábrica, uma fábrica de desconhecidas peças para a indústria têxtil, umas coisas espinhosas, cortantes, que se colocavam em máquinas de fazer tecidos de roupas. Coisas muito úteis, mas completamente invisíveis aos olhos de todo mundo e, é claro, sem encanto algum. Essa fábrica era cinzenta e tinha um cheiro bem diferente do delicioso cheiro de chocolate da vizinha. Era a realidade, do trabalho, da vida, das pessoas, do início da vida adulta, do fim da infância. Foi ali, na Cardobrasil Ltda. que conheci algumas das melhores pessoas que conheci na minha vida, gente boa, trabalhadores, pais e mães de família, grandes amigos até hoje. Não fazíamos chocolate em uma fantástica fábrica de fantasia infantil, mas sim coisas úteis do mundo real dos adultos, coisas sem cor, sem cheiro bom e praticamente invisíveis. Éramos os Lumpa lumpas da vida real. Foi ali na adolescência que descobri que definitivamente não existiam estradas de tijolos amarelos, cidades das esmeraldas e tampouco tijolos encantados de chocolate. Foi ali que aprendi que para comer, não só chocolate, era preciso trabalhar duro. Hoje, como tudo nesse mundo que tem começo, meio e fim, não existe mais a fábrica cinzenta de peças úteis, assim como não mais existe também a deliciosa fábrica de chocolate de tijolos encantados. Ali hoje foram erguidas quatro torres de condomínio de luxo que chegam a tocar o céu. Alguns amigos dali também já não estão mais entre nós, certamente foram erguidos aos céus. Mas apesar da cor cinzenta e do cheiro nada agradável, a lembrança de tudo e, principalmente de todos, continua fresca e serena na minha memória, embalando a concretude da vida que segue - graças a Deus - com os indispensáveis sonhos e fantasias infantis perfumados com aquele eterno cheiro dos tijolos de chocolate encantados.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A crise das chinelas

Às vésperas do Natal - aquela festa do bom velhinho barbado vestido de vermelho que furtivamente invade propriedades para distribuir mercadorias desejadas aos merecedores - houve um conflito insólito no contexto da bizarra guerra ideológica em pauta nesta nação. Partidários do fim do mundo (com borda de catupiry), os adoradores de pneu, ETs e outros seres míticos infames, surtaram com uma propaganda de chinelas, a qual, segundo uma interpretação enviesada, seria uma provocação à direita radical. 

Então resolveram mutilar suas sandálias de forma agressiva (e hilária para nós, vacinados) e postar estes vídeos nas redes. Teve até vídeos do tipo storytelling, mostrando tal ato culminante, desde a compra de sandálias novas (já condenadas) para toda a familia. Houve ainda vídeos de pessoas pulando com a perna direita ao passar em frente às lojas da referida marca das chinelas, sob os olhares espantados (e risos) das pessoas não acometidas por essa doença mental, causa de tais assombros. 

Enquanto isso, no mundo real, naquele mesmo dia, as ações da empresa dona da marca, despencaram na Bolsa. Não quero dizer com isso que o mundo do mercado financeiro seja real, ao contrário, mas isso é uma outra história. Pois bem, no dia seguinte, passada essa onda de imbecilidade, o mercado, que não é tonto, devolveu o valor às ações da gigante dos calçados, que subiram quase 9% em um dia de operações na Bolsa. Tal flutuação incomum é sempre bem aproveitada pelos ratos Farialimers sempre de plantão, que realizam a operação chamada Day Trade. Operação essa perfeitamente legal e que deixou em apenas um dia, alguns investidores $ 90 mil mais ricos a cada milhão investido nos títulos subvalorizados da empresa na véspera. 

Dito isto, não deixa de ser intrigante como o sistema capitalista opera nos corações e mentes para, no final das contas, extrair valor não só do trabalho humano subvalorizado no processo produtivo (mais valia), mas cada vez mais, extrair valor da imbecilidade de um exército de zumbis que nem sonham que são apenas marionetes nas mãos de espertíssimos títeres. 

A crise das chinelas revela que o fetiche da mercadoria, tão bem explicado pelo bom velhinho barbudo e de vermelho (não aquele do Natal, mas o outro) extrapolou a dimensão então analisada. A chinela passou a ser mercadoria objeto de desejo não para ser utilizada (ou até ostentada), mas para ser destruída, ou melhor, executada com requintes de crueldade! É como se tivesse vida! É como se começasse a dançar!

A ideologia burguesa dominante cooptou enorme parcela da classe média, ignorante, que fetichizou uma mercadoria, ressignificando-a simbolicamente para simplesmente executá-la em "praça pública", tal como uma herege dos tempos medievais, em um ato cego de fé (sim, teve vídeo com citação bíblica)...

Se estivesse entre nós, o bom velhinho, ou melhor, os dois bons velhinhos, ficariam confusos com essa situação.

Mas "ele não existe", como disse semana passada em sua defesa o Mao (não o Tse-Tung), mas o Mao, vocalista do Garotos Podres, na Delegacia onde foi chamado sob a acusação de sua música - de 40 anos - ter ofendido o... Papai Noel, velho batuta...

Enfim, o Brasil realmente não é para amadores.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Sobre dancinhas e carne com ouro no Catar.

 



Competência, competição, mérito, trabalho, recompensa e consumo. Estes são os valores centrais do capitalismo.  

O sistema precisa a todo momento reafirmar a sua ideologia a fim de conquistar e manter milhões de corações e mentes presas a seus valores para, dessa forma, continuar gerando lucro para os donos do capital. 

Para tanto, nada melhor que jovens garotos propaganda que corporificam tais valores de forma natural e os disseminam na audiência global por meio de um torneio esportivo mundial. 

Entre estes jovens há também alguns mais idosos, muitos negros e alguns homoafetivos. Tudo muito adequado à propagação de uma ideologia pretensamente democrática e liberal, que não impede a ascenção de minorias aos poncaros da glória, fama e poder que só o dinheiro, suado e merecido pelo esforço do trabalho competente pode oferecer em um sistema competitivo, meritocrático e justo, que é como o capitalismo se esforça para se demonstrar. 

A Copa do Mundo e as Olimpíadas são os outdoors máximos do capitalismo. São mega campanhas bienais que encantam bilhões almas que colocam seus braços e cérebros à postos para movimentar a fábrica do patrão chamado Capital. A Eurocopa, a F1, o UFC, e todas as outras modalidades esportivas globais e também todas as locais, como o Paulista, o Brasileirão, a Copinha, reforçam anualmente a necessária propaganda do sistema; que se reproduz também no interclasse da escola das crianças e no rachão do campinho da vila. 

Os atletas globais são os gladiadores master nos seus respectivos circos. Se esforçam, treinam, se superam de lesões, alguns até morrem em campo, como o Ayrton. São heróis, mártires, exemplos a serem seguidos pelos milhões de garotos e garotas em todo canto do planeta. E pelos adultos também, principalmente os adultos infantilizados, que são a esmagadora maioria. 

Os atletas ganham muito bem para executarem essa importante função. Na verdade, nem sabem (e é bom que nem saibam mesmo) que a executam. E, é claro, gastam também bastante, e de forma exagerada - claro, exagerada pelos parâmetros modestos dos bilhões de mortais que os glorificam. Sim, eles ostentam sua glória. Afinal, sofreram muito para "chegar lá". Às vezes são debochados, insensiveis ou até mesmo desrespeitosos com o sofrimento alheio. Mas, e daí? "Faça os seus corre. Eu suei muito pra chegar onde estou. Se eu consegui, vc tb consegue". Essa é a mensagem de toda a propaganda capitalista. 

E ela cola! As pessoas realmente valorizam as conquistas dos seus mitos e acreditam que podem conseguir também, desde que trilhem a árdua jornada do seu herói. Jornada essa sempre bastante conhecida, contada e recontada nos botecos, reproduzidas e complementadas a partir da mesma fonte, a mesma mídia, que é claro, também executa o seu papel fundamental. São mantras sagrados do sucesso. A estrada dos tijolos dourados é cheia de percalços e, no fim, o Mágico de OZ lhe dirá que seu sucesso do depende de você mesmo. Você S/A. 

Por tudo isso, eu não posso concordar com os discursos que pretendem crucificar o comportamento destes garotos propaganda globais, de origem humilde e ora bem sucedidos. 

Se fazem dancinhas debochadas ou se comem carne com ouro no Catar, isso é um comportamento normal destes ícones no contexto deste sistema. 

O que deveria ser alvo de críticas é exatamente o próprio sistema capitalista, deplorável e desumano. 

Esse mesmo sistema que cria e alimenta uma esquerda inofensiva, pulverizada, desunida, desfocada, cosmeticamente raivosa e muito, mas muito despreparada intelectualmente. Uma esquerda que se vangloria de ser diversa, de ser "as esquerdas", quando na verdade é exatamente essa a sua maior fraqueza. Onde estão os líderes dessa galerinha que, quando não está fazendo ciranda em prol dos direitos da baleia azul ou do banheiro escolar unissex, perde tempo e energia atacando os espantalhos (sem cérebro) do sistema, quando deveria mesmo era se juntar para derrubar o charlatão do Mágico de OZ. 

Portanto, deixem os meninos em paz. E vamos fazer a revolução! Que tal? Alguém aí topa?


... Hello?

quinta-feira, 1 de julho de 2021

A bibliotecária, o menino e o seu dedão.

    Contava os 11 anos quando, numa bela tarde, fui obrigado a abandonar a pelada no asfalto com os amigos da rua e fui para casa manquitolando, com a tampa do dedão aberta por aquela bola dividida com o Carlinhos. No caminho de casa havia, ou melhor, há até hoje, uma Biblioteca infanto-juvenil Municipal. Sentei-me na escadinha, bem na porta da biblioteca, a fim de ajeitar o dedão sanguinolento para a árdua jornada de quatro quadras até minha casa. Então surgiu por detrás dos meus ombros uma figura que acabou se tornando alguém muito especial para mim. Era uma senhora baixinha e simpática, que, apoiada em duas muletas, abriu um largo sorriso e me perguntou carinhosamente:

    - Olá menino, o que houve? posso ajudar? Eu me chamo Leila. Qual o seu nome?

    - Oi Sra! Obrigado! Eu me machuquei jogando bola. Me chamo Márcio - respondi.

    - Venha para dentro Márcio e vamos colocar Merthiolate e um curativo aí nesse dedão, tá?

    Curiosamente, pela primeira vez em 12 anos eu não fugi do Merthiolate. Sempre havia preferido o risco de uma infecção gangrenosa ao ardor passageiro daquele antisséptico tenebroso. Também não fugi daquele espaço – cheio de livros, que lembravam a escola… aaargh! - que estava prestes a adentrar. Na verdade, a dor no dedão e a generosidade daquela Sra. me cegaram para este pequeno detalhe: estava entrando em uma biblioteca! 

    Enquanto a D. Leila, a bibliotecária, fazia um curativo no meu dedão, eu comecei a ler um dos livros que estava sobre sua mesa. Era "O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas. Ao tempo de finalizar o curativo eu já havia lido umas 10 páginas daquele livrão que parecia uma Bíblia de tão grosso. Eu nunca havia me atrevido a ler um livro daquele tipo. um livro tão grande... e só de letras!

    Percebendo meu interesse naquela leitura, D. Leila me disse que eu poderia levar o livro, mesmo sem ter a carteirinha da Biblioteca, mas com a condição de voltar no dia seguinte para fazê-la e dessa forma me tornar sócio. Sócio! Veja só: eu seria sócio de uma biblioteca!

    Pra resumir o enredo, a partir daquele tarde eu passei quase todas as tardes dos próximos 2 anos lendo os livros daquelas prateleiras, que se tornaram mágicas para mim. E me lembro com muito carinho dos momentos que passei ouvindo as histórias contadas pela D. Leila nos momentos em que ela, percebendo minha avidez em escolher o próximo livro, aliada à minha inorância de leitor iniciante, vinha me contar alguma história, de cabeça: Dorothy, Alice, Capitão Flint, Capitão Aab, Capitão Nemo, Dom Quixote, Sanho Pança, Jean Valjean, Dartagnan, Hercule Poirot, Dr. Jeckil, Dr. Frankenstein. Eram tantas histórias, tantos personagens mágicos… eram doces drops da literatura universal, trailers de aventuras sem fim que atiçavam ainda mais minha vontade de ler.

            D. Leila se esforçava bastante para alcançar certos livros nas prateleiras mais altas, já que era PcD. Ela havia sido uma vítima da poliomielite que, em sua época de infância, fez milhares de brasileirinhos sofrer com esse mal, que poderia ter sido facilmente evitado pela ação eficaz do governo nas áreas de saúde e educação. Eu trepava na cadeira para pegar aqueles livros indicados por ela para depois ficarmos ali, durante algumas horas, cada um lendo o seu livro, no silêncio daquelas tardes distantes naquele templo do saber. 

      Enfim, foi ali também que conheci Orwell, Huxley, Morus, Goethe, Kafka, Hemingway, Tolstoy, Cervantes, Dante... e Marx, Aristóteles, Maquiavel, Rousseau, Montesquieu, Camus, Sartre, Nietzsche, Pessoa, Machado... 

   Enfim, essa é a história de um dedão arrebentado que, tratado com amor e carinho por alguém que fazia muito mais do que sua rotina de cartório, acabou por criar um leitor compulsivo e um professor apaixonado.

Onde quer que esteja, obrigado D. Leila. 


domingo, 17 de março de 2019

História descomplicada

Um artigo publicado na BBC Brasil intitulado "O filosofo muçulmano que formulou a teoria da evolução mil anos antes de Darwin" (link abaixo) me levou a escrever este breve texto. Leia o artigo depois volte ao texto pra mais uma gota de Sociologia ok?

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-47577118

Pois bem, enquanto a Europa vivia sob a barbárie e temendo a Igreja (que mantinha a todo custo o monopólio do conhecimento, do tipo medicamentos contra o câncer, patentes de DNA e aceleradores de particulas), a China lançava foguetes, cruzava os mares e o Islã desenvolvia ciência a partir do legado dos gregos, trazido à luz  por Averroés, um tipo de Aristóteles das arábias. 
Então, depois que o mundo árabe foi cooptado pelas Guerras ao Terror da época - Europa's First acho que era o lema! - sob a alegação, vejamos... de que os infiéis tinham armas químicas em Jerusalém, o mundo branco conheceu um renascimento das ciências e das artes, separando-se gradualmente (mas não totalmente, pq ninguém é besta), do misticismo. 
Ao mesmo tempo, o mundo árabe começava sua desagregação e decadência política e econômica, afundando-se... aaiin...no fundamentalismo religioso... Era um tal enrosco de guerras intermináveis que os barbarizou, afastando-os da ciência, das artes, da tecnologia e, consequentemente, do desenvolvimento. 
Muito tempo depois, sempre que o mundo árabe tenta fazer as pazes e unir-se para fazer ressurgir seu passado glorioso (Panarabismo), tendo como modelo inspirador o grande Saladino, com terroristas como Nasser, Sadat, Kadafi, Sadam, Assad, acabaram tomando porrada, tiro e bomba do Mundo Livre Oil Co. S/A. 
Mas hoje em dia, com internet, tradutor automático e instantâneo, suco de uva de soja e um pouco de criatividade e ousadia é bem mais divertido compreender a história. Ah sim, e a China? Bem, com quase 2 bilhões de Jet-Li atômicos ninguém é besta de mexer ali né? E agora, depois que acordou do boa-noite Cinderela dado pelos ingleses, ninguém segura... Yes, We can!... ah tá...

domingo, 26 de novembro de 2017

E educação pública de São Paulo na UTI


Fonte: https://www.logisticadescomplicada.com/gerenciando-a-capacidade-em-utis/

Segundo dados da Secretaria de Educação do Estado de são Paulo, conforme o site G1, o número de professores afastados por transtornos em SP quase dobra em 2016 e vai a 50 mil. (leia a íntegra).
25mil profesores foram afastados por transtornos mentais em 2015 e 50mil em 2016. O dobro! em um ano! Esse número representa 37% do total de professores em licença médica por motivos diversos em 2016. Ou seja, há portanto um total de 137mil professores afastados em licença médica!. Isso, por si só, já é um absurdo! Pensar que esta massa de profissionais - a classe de profissionais mais qualificada, embora mais mal paga do país - esteja temporária ou permanentemente inválida é, além de uma crueldade, uma perda irracional de recursos humanos e econômicos.
Mas a reportagem citada não leva em conta aqueles professores que se exoneram. E são muitos. Mas não entram nessa estatística, pois saem do sistema. E muitos destes exoneram-se no primeiro ano de trabalho no cargo. Mas será que os motivos que levam um profissional a se exonerar de um tão sonhado cargo público, agindo dessa forma tão "inconsequente", logo no início da nova carreira, seria tão diferente daqueles motivos que levam anualmente milhares de professores à licença médica tão traumática?
Creio que não. Mas essa é apenas uma reflexão que precisaria de dados consistentes para ser melhor fundamentada e exposta. Por ora, deixemo-la de lado, deixando de lado também os números de professores licenciados por outros motivos que não sejam médicos, como aqueles que se licenciaram sem vencimentos (pela 202), muitos por stress e cansaço físico e emocional, que escolheram "dar um tempo" na carreira para repensar se tudo isso vale a pena mesmo... e voltemos à análise daquilo que traz a notícia do início desta semana.
São 137mil professores em licença médica, ou seja, mais da metade do professorado estadual paulista que é de 206mil professores (efetivos+temporários, dados de 2016) estão doentes. Mas isso não significa necessariamente que aqueles que permanecem na lida estejam gozando de excelente saúde. Mas o fato é que mais da metade - ou melhor, 60% - foram empurrados para fora do sistema educacional e inseridos no sistema de previdência e assistência por causa da insanidade daquele sistema de onde foram expulsos pela cruel realidade das escolas paulistas de hoje.
Agora façamos uma pergunta simples: como pode um sistema funcionar com mais de 60% de disfuncionalidade? Poderia um sistema, seja ele qual for: digestório, cardiovascular, capitalista, industrial, funcionar com déficit de mais da metade de seus órgãos/membros? O que aconteceria com um organismo cujo coração bate perfeitamente mas 60% das veias e artérias estão entupidas? Colapso e falecimento certo? Me corrijam os médicos se eu estiver errado e, caso esteja certo, alguns (ou todos) certamente irão dizer que nesse caso - seguindo mesmo a ética deontológica da medicina na qual o valor maior é a preservação da vida do paciente - seria lícito utilizar todos os meios possíveis para preservar a vida daquele que não se mantém vivo sozinho.
Pois bem, o sistema educacional público do Estado de São Paulo, em colapso há muito tempo, está agonizando na UTI. Sua saúde vem se agravando ao longo do tempo; vem respirando artificialmente apenas pela obstinação de cada vez menos heróis que ainda resistem na dura rotina escolar diária. É um sistema que utiliza-se da sonda gástrica da licença médica - que expurga o que não lhe é aproveitável. Mas vem recebendo, como profilaxia insuficiente, frequentes transfusões de sangue novo, como na chamada em out/2016 de mais de 20mil professores do concurso e novamente mais 7mil em Junho deste ano.
No entanto, este sangue novo, inserido no sistema infecto, fatalmente será em grande parte contaminado, para daí ser expurgado também nos próximos anos. Mas tudo bem. Tem muito sangue a ser utilizado ainda no banco de sangue dos concursos públicos oferecidos a uma classe de trabalhadores tão desrespeitada que se sujeita a arriscar a sorte nessa verdadeira roleta russa em que se transformou o sistema educacional público de São Paulo. Quem sabe consegue-se entrar numa escola "boa" onde não há agressões a professores (ao menos agressões físicas), onde as drogas não corram quase que abertamente pelos corredores e onde a direção seja minimamente eficiente no controle da indisciplina e na parceria com as famílias.
Enfim, essa é a política pública educacional deste governo que aí está a tanto tempo aplicando este projeto cruel de destruição da educação pública, ceifando a saúde (e a produtividade) de milhares de profissionais da educação e também o futuro de milhões de jovens estudantes.
Pois bem, ou exigimos definitivamente o restabelecimento da saúde da educação, com o fim dessa política criminosa e a adoção de uma política compromissada com a qualidade de vida dos professores e dos alunos (e isso é perfeitamente possível) ou então muito mais vidas e muto mais sonhos serão destruídos, até que se dê definitivamente a falência do organismo com a entrega do corpo aos urubus de plantão.