Ao lado da padaria da saida direita do metrô V Madalena há uma simpática padaria onde eu tomava café quando voltava do trabalho na época em que labutei na Paulista. E ao lado desta panificadora há hoje uma cafeteria cujo nome homenageia ninguém menos que Marx. Isso mesmo, o bom velhinho. Eu, como professor já há algumas décadas, egresso da então gloriosa Sociologia da então não menos gloriosa FFLCH/USP, tocado de saudosismo, fiquei curioso em visitar este notável estabelecimento, que também se autointitula livraria, galeria de exposições e brechó. No entanto, a vida corrida do cotidiano havia me tolhido consumar este singelo prazer, até hoje. Sim, até hoje, pois finalmente, ao dar uma carona até a referida estação do metrô, o meu poderoso companheiro, meu carro guerreiro, raro exemplar bem conservado da geração X, assim como eu, (na verdade, bem mais íntegro), simplesmente apagou e não quis mais funcionar. Aliás, parece que ele ficou com uma ponta de ciúme do piripaque semelhante que seu dono sofreu no começo desta semana, quando felizmente uma atenciosa Dra. da UPA Sorocabana me mandou goela abaixo dois comprimidinhos para aliviar a pressão, em alta ultimamente, aliás, sabe-se lá o por que... Pois bem, enquanto aguardava o socorro ao meu bom velhinho e companheiro geracional de quatro rodas, bem defronte à tal cafeteria do bom velhinho vermelho, senti um melancólico desejo, e percebi a rara oportunidade, de finalmente visitar o tal estabelecimento, principalmente ao avistar, após regular a mirada com minhas recentes multifocais, um cartaz na porta anunciando uma exposição sobre Rosa Luxemburgo. Uau! Que interessante! pensei.
Mas ainda precisava aguardar o socorro chegar para então dar um pulinho ali naquele, que certamente, assim avaliei, seria um espaço cultural qualificado. Mas assim que a tarde caiu, tomei um baita susto quando dali começou a ser entoada, por meio de um verdadeiro paredão funkadélico, um som de reggae mixado com música indiana, creio eu. E quedei-me atônito quando então começou a chegar, de Uber, pessoinhas bem descoladas, todas Gen Z, todas outfit minimo de 10k cada (descontando os iPhones e acessórios necessários da maçã desejada, indispensáveis para o registro e compartilhamento da vidinha real no etéreo universo social digital).
Estes seres humanos neohippies começaram a entrar e sair da casa com uma chávena de café nas mãos onde se via impresso o logotipo do estabelecimento; deliciavam-se no passeio público, embalados por grosseiras gargalhadas e altas conversas culturais, tais como: qual o melhor perfume masculino, Fakhar black ou YSL... também consegui ouvir (pelo volume das tagarelices, acho que conseguiria ouvir mesmo que estivesse na estação Sumaré) sobre viagens, de Machu Picchu a Petra e Dubai, além de vivenciar, estupefato, calorosas discussões filosóficas, quiçá acadêmicas, sobre séries de TV streaming e Doramas. Na medida em que tal ambiente se formava, minha verve antropológica rogava por um pouco mais de atraso no socorro automotivo a fim de me proporcionar a possibilidade de experenciar este ethos exótico e evidentemente paradoxal, com o objetivo único de colher mais material de análise sociológica. Mas enquanto a tarde caia naquele microcosmo, caia também meu enlevo em visitar a tal cafeteria, cujo objetivo primaz sopinha ser compartilhar saber sociológico e fazer novos amigos da classe (classe trabalhadora, frise-se bem!). Mas como já havia percebido claramente que não era o caso ali e como o socorro de fato demorou, fui ficando meio tonto com o aroma de café gourmet que emanava daquele pitoresco ambiente ao ar livre. Acho que era café gourmet ou talvez fosse dos Blacks ou Pode ou até mesmo de alguma outra planta mais exótica. Bem, mas isso não vem ao caso. Então, finalmente o socorro chegou, consertamos rapidamente o bom velhinho e - engolindo uma vontade louca de entrar naquele lugar e chutar todas aquelas mercadorias que fetichizavam os Zs presentes e conspurcavam o propósito real (ou ao menos, ideal) daquele point - eu fui pra casa tomar um chá de cidreira a fim de rebater tamanha tonteira (em todos os sentidos) a qual fui submetido naquele interregno.
Fim do relato. Tire suas próprias conclusões, caro leitor.
No entanto, não me furtarei a compartilhar as minhas próprias para você você que, se teve a paciência de chegar até aqui, demonstra um perfil daqueles que, como eu, preferem gastar seu tempo com algo aparentemente inútil como a leitura, em detrimento às atividades fúteis do cotidiano pequeno burguês. A você, portanto, agradeço e desde já me solidarizo gratuitamente, sem qualquer expectativa de contrapartida em likes, compartilhamentos ou qualquer coisa que o valha (tanto) nestas redes egocêntricas.
Pois bem, então, já com o chazinho de cidreira apurando na boa e velha caneca vermelha esmaltada, aproveitei para refletir sobre o dia e, primeiramente, confirmar minha teoria - ainda não aceita pelos bons e velhos companheiros da boa e velha esquerda, órfã, é claro, de que a causa operária está completamente perdida.
Mas isso não é novidade. A novidade, para alguns, talvez seja a de que o discurso progressista daS esquerdaS (no sinistro plural) é hoje uma verdadeira farsa (desculpe a antítese, mas é a força do hábito adquirido com sérias leituras jurássicas sobre o tema). Como eu ia dizendo, o discurso progressista, tão caro à esquerda (me recuso a usar o nefasto plural aqui) é uma farsa! posto que se insere no e se nutre do próprio sistema capitalista, conforme se afirma pelo breve relato da experiência antropológica compartilhada, notada e paradoxalmente antagônica.
Mas o mais aterrador nessa história toda é constatar, agora já sob os efeitos do segundo gole de chá quentinho, que sem opositor à altura, a extrema (e tresloucada) direita, inexoravelmente voltará ao poder neste país. E virá com muito mais força! pois de fato, não existe oposição à sua altura.
Se a classe trabalhadora tiver que depender destaS novaS esquerdaS (agora sim, uso no plural a fim de enfatizar o autoengano deles), diversas, identitárias, festivas, com muitas "prerrogativas" (n.b) e descoladas - de fato, descoladas da realidade do povo, porém colada nos pêlos do escroto capitalista - para defender seus interesses...
Ora, se nas próximas eleições o povo oprimido deste país (e bota oprimido nisso!) tiver que depender dessa esquerda mo(ça)dinha gen Z de boutique madalena pós moderna para fazer valer seus direitos... ah... o horror estará de volta, nao tenha dúvida.
E não adianta cortar a cabeça da serpente. Ela é uma Hydra, pois sempre surgirá outra em seu lugar. O ovo da serpente foi chocado, eclodiu, a serpente feriu, matou, depois foi nocauteada e agora luta-se para mantê-la a ferros. Mas a chocadeira está quentinha, e é enorme, abrange metade do país e muitos outros ovos estão sendo chocados. Muitos! E para piorar, mais da metade do próprio povo oprimido está ajudando na chocadeira.
Enquanto isso, as esquerdas (plural, again) brincam de ciranda da diversidade e registram estas açôes revolucionárias com as lindas selfies que só os seus ProMax conseguem capturar, nutrindo o autoengano de serem os portadores do bastião da neorevolução pacífica, dentro da ordem (capitalista).
Se nas últimas eleições a esquerda trabalhista conseguiu somente a duras penas, somente graças a alianças espúrias com representantes conservadores, - como o xuxu da cerca da direita - triunfar sobre um pateta mediocre, sem partido, neuro patológico e criminoso, nas próximas eleições a derrota dos trabalhadores, mesmo com altas "prerrogativas" (n.b. again!), será acachapante e o país fatalmente se quedará entregue à própria sorte. Ou melhor, ao nosso próprio azar. Ainda bem que Marx não está entre nós, pois certamente estaria muito, mas muito decepcionado.






