domingo, 26 de novembro de 2017

E educação pública de São Paulo na UTI


Fonte: https://www.logisticadescomplicada.com/gerenciando-a-capacidade-em-utis/

Segundo dados da Secretaria de Educação do Estado de são Paulo, conforme o site G1, o número de professores afastados por transtornos em SP quase dobra em 2016 e vai a 50 mil. (leia a íntegra).
25mil profesores foram afastados por transtornos mentais em 2015 e 50mil em 2016. O dobro! em um ano! Esse número representa 37% do total de professores em licença médica por motivos diversos em 2016. Ou seja, há portanto um total de 137mil professores afastados em licença médica!. Isso, por si só, já é um absurdo! Pensar que esta massa de profissionais - a classe de profissionais mais qualificada, embora mais mal paga do país - esteja temporária ou permanentemente inválida é, além de uma crueldade, uma perda irracional de recursos humanos e econômicos.
Mas a reportagem citada não leva em conta aqueles professores que se exoneram. E são muitos. Mas não entram nessa estatística, pois saem do sistema. E muitos destes exoneram-se no primeiro ano de trabalho no cargo. Mas será que os motivos que levam um profissional a se exonerar de um tão sonhado cargo público, agindo dessa forma tão "inconsequente", logo no início da nova carreira, seria tão diferente daqueles motivos que levam anualmente milhares de professores à licença médica tão traumática?
Creio que não. Mas essa é apenas uma reflexão que precisaria de dados consistentes para ser melhor fundamentada e exposta. Por ora, deixemo-la de lado, deixando de lado também os números de professores licenciados por outros motivos que não sejam médicos, como aqueles que se licenciaram sem vencimentos (pela 202), muitos por stress e cansaço físico e emocional, que escolheram "dar um tempo" na carreira para repensar se tudo isso vale a pena mesmo... e voltemos à análise daquilo que traz a notícia do início desta semana.
São 137mil professores em licença médica, ou seja, mais da metade do professorado estadual paulista que é de 206mil professores (efetivos+temporários, dados de 2016) estão doentes. Mas isso não significa necessariamente que aqueles que permanecem na lida estejam gozando de excelente saúde. Mas o fato é que mais da metade - ou melhor, 60% - foram empurrados para fora do sistema educacional e inseridos no sistema de previdência e assistência por causa da insanidade daquele sistema de onde foram expulsos pela cruel realidade das escolas paulistas de hoje.
Agora façamos uma pergunta simples: como pode um sistema funcionar com mais de 60% de disfuncionalidade? Poderia um sistema, seja ele qual for: digestório, cardiovascular, capitalista, industrial, funcionar com déficit de mais da metade de seus órgãos/membros? O que aconteceria com um organismo cujo coração bate perfeitamente mas 60% das veias e artérias estão entupidas? Colapso e falecimento certo? Me corrijam os médicos se eu estiver errado e, caso esteja certo, alguns (ou todos) certamente irão dizer que nesse caso - seguindo mesmo a ética deontológica da medicina na qual o valor maior é a preservação da vida do paciente - seria lícito utilizar todos os meios possíveis para preservar a vida daquele que não se mantém vivo sozinho.
Pois bem, o sistema educacional público do Estado de São Paulo, em colapso há muito tempo, está agonizando na UTI. Sua saúde vem se agravando ao longo do tempo; vem respirando artificialmente apenas pela obstinação de cada vez menos heróis que ainda resistem na dura rotina escolar diária. É um sistema que utiliza-se da sonda gástrica da licença médica - que expurga o que não lhe é aproveitável. Mas vem recebendo, como profilaxia insuficiente, frequentes transfusões de sangue novo, como na chamada em out/2016 de mais de 20mil professores do concurso e novamente mais 7mil em Junho deste ano.
No entanto, este sangue novo, inserido no sistema infecto, fatalmente será em grande parte contaminado, para daí ser expurgado também nos próximos anos. Mas tudo bem. Tem muito sangue a ser utilizado ainda no banco de sangue dos concursos públicos oferecidos a uma classe de trabalhadores tão desrespeitada que se sujeita a arriscar a sorte nessa verdadeira roleta russa em que se transformou o sistema educacional público de São Paulo. Quem sabe consegue-se entrar numa escola "boa" onde não há agressões a professores (ao menos agressões físicas), onde as drogas não corram quase que abertamente pelos corredores e onde a direção seja minimamente eficiente no controle da indisciplina e na parceria com as famílias.
Enfim, essa é a política pública educacional deste governo que aí está a tanto tempo aplicando este projeto cruel de destruição da educação pública, ceifando a saúde (e a produtividade) de milhares de profissionais da educação e também o futuro de milhões de jovens estudantes.
Pois bem, ou exigimos definitivamente o restabelecimento da saúde da educação, com o fim dessa política criminosa e a adoção de uma política compromissada com a qualidade de vida dos professores e dos alunos (e isso é perfeitamente possível) ou então muito mais vidas e muto mais sonhos serão destruídos, até que se dê definitivamente a falência do organismo com a entrega do corpo aos urubus de plantão.

terça-feira, 7 de março de 2017

Capoeira e Pixo: duas artes, a mesma história.

Capítulo XIII - Dos vadios e capoeiras
Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal;
Pena - de prisão cellular por dous a seis mezes.
Paragrapho unico. E' considerado circumstancia aggravante pertencer o capoeira a alguma banda ou malta. Aos chefes, ou cabeças, se imporá a pena em dobro.

Art. 403. No caso de reincidencia, será applicada ao capoeira, no gráo maximo, a pena do art. 400.
Paragrapho unico. Si for estrangeiro, será deportado depois de cumprida a pena.

(Art. 400. Si o termo for quebrado, o que importará reincidencia, o infractor será recolhido, por um a tres annos, a colonias penaes que se fundarem em ilhas maritimas, ou nas fronteiras do territorio nacional, podendo para esse fim ser aproveitados os presidios militares existentes.
Paragrapho unico. Si o infractor for estrangeiro será deportado.)
Decreto número 847, de 11 de outubro de 1890


Após menos de 1 ano da proclamação da República dos Estados Unidos do Brasil e pouco mais de 2 anos da edição da Lei Áurea, surge essa lei para “limpar” as ruas dos vândalos e arruaceiros. Assim como o Candomblé, a capoeira enquanto expressão cultural de um povo despossuído e intolerado, igualmente não foi tolerada pela sociedade branca, católica e “civilizada” de um país fundado sob os princípios republicanos por - e para - uma elite que tinha as mãos manchadas pelo sangue que escorria dos troncos e senzalas.

Depois de quase meio século de perseguição, em 1937, a capoeira foi liberada no país por um decreto-lei, no contexto de um projeto populista de ditadura tupiniquim que precisava do maior apoio popular possível para instituir um “estado novo”.       

Mestre Bimba de Salvador aos poucos foi saindo da clandestinidade e passou a ensinar sua arte, que logo foi aceita socialmente, valorizada e incorporada pela elite como uma prática esportiva e/ou uma dança exótica. Elevar à categoria de esporte e cultura exóticos é o  melhor meio de se desqualificar uma intolerada cultura genuína.

Descriminalizada oficialmente a partir do código penal de 1940 – o mesmo inclusive que se encontra atualmente em vigor, com algumas alterações – a capoeira, nascida no seio da senzala e utilizada como luta contra a opressão dos brancos e como expressão genuína da cultura negra transformou-se de forma radical; cooptada pela elite, foi embranquecida e transformada em dança, arte e esporte exótico de “exportação”.


Mas a capoeira é uma prática social que nasceu da real necessidade de uma população oprimida e explorada, em defesa a essa opressão. Uma opressão que vem se efetivando desde o plano material, físico, quanto no plano cultural, simbólico. Mas a pequena parcela da população que então dominava as dimensões políticas e econômicas da sociedade, em certa medida, não resistiu em manter seu projeto de repressão e eliminação dessa manifestação popular genuinamente preta que, ao contrário do esperado pela elite, só ganhava força na medida em que era violentamente reprimida. Foi um conflito incendiário, abastecido com a lenha do descaso do governo com a real situação social dos capoeiras, os negros brasileiros do início do século XX, brutalizados pela sociedade brasileira republicana.

O governo da época – composto pela elite branca, católica, asséptica e “civilizada” – ao perceber sua derrota frente à cultura popular que resistia ao extermínio, preferiu mudar sua estratégia, transformando a capoeira em uma modalidade esportiva para assim, conferindo-lhe certo reconhecimento e, portanto, certo valor social, circunscrevê-la a um espaço social determinado, para que pudesse enfim, dessa forma, controlar os efeitos de sua prática. Aceitar para poder controlar. Valorizar sua forma para poder esvaziar sua essência.

Passados quase um século desse movimento de aculturação, a capoeira, expurgada dos componentes políticos de resistência, transgressão e rebeldia que lhe caracterizavam desde sua origem, foi cooptada pela cultura dominante e circunscrita, até hoje, a uma simples prática corporal exótica, uma dança típica, uma “contribuição” dos africanos à cultura nacional, um símbolo da cultura “brejeira e marota” do povo brasileiro. Só lembrando aqui que o uso desse termo “contribuição”, tão comum em livros didáticos ao tratar do tema da formação do povo brasileiro, serve a um propósito ideológico. Segundo o dicionário Aurélio, “contribuição” é “concorrer para um fim; cooperar”. Não é preciso nenhuma teoria, além da pura lógica, para admitir que os escravizados não queriam cooperar com a escravidão.

De forma asséptica, segura, com rigor, eficiência e com o apoio das massas dos “cidadãos de bem” que julgaram estarem certos, foi-se higienizando tudo que era “sujo e feio”; foi-se vacinando todos os “doentes” e conspurcados, já não tão revoltados como outrora; foram-se construindo cidades limpas e “lindas”, conforme a estética fascista, no caminho para a ditadura que, felizmente, não chegou a se consolidar por completo, apesar de ter sido bastante sangrenta, a despeito de os livros de história insistirem em minimizar tais fatos, relativizando-os pelas conquistas trabalhistas advindas daquela era populista.

E hoje, enquanto turistas estrangeiros se extasiam no Brasil diante de da capoeiral, vislumbrando-as tal qual uma atração circense, entre um sarapatel e um bobó de camarão, regados a cachaça (aliás, outra “contribuição” cultural dos escravizados e que virou também “produto” de exportação) enfim, enquanto a elite global se empanturra em chiquérrimos restaurantes típicos de padrão internacional, as famosas academias oferecem o ensino e a prática dessa arte, são frequentadas, em sua maioria, pela classe média que pode pagar por suas salgadas mensalidades. Lembrando que classe média é branca.

A capoeira hoje é um esporte que luta para ser reconhecido como esporte olímpico no mundo dos brancos. Mas, onde ficou a capoeira enquanto luta? Enquanto uma forte expressão da cultura negra?.

Enquanto a capoeira vai pra boutique de exportação, os pretos pobres das favelas, jovens herdeiros das senzalas brasileiras, são os mais afetados por esse apartamento. Muito mais do que qualquer outro brasileiro, são eles os verdadeiros excluídos da própria cultura.     

E quanto à pixação? O pixo tem profundas semelhanças com o movimento da capoeira, tanto em sua origem social quanto em sua motivação política.

A lei, num primeiro momento, criminaliza, para logo a seguir, regulamentar essa prática de “sujar” o patrimônio alheio. Segue a mesma lógica tradicional de que, se não é possível combater e eliminar, é preciso regulamentar para controlar. Vejamos a evolução desse movimento social a partir da evolução da transformação dos códigos e das normas legais que regulamentam esta matéria.  

Lei 9605 de 12 de Fevereiro de 1998
Art. 65. Pichar, grafitar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.
Parágrafo único. Se o ato for realizado em monumento ou coisa tombada em virtude do seu valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena é de seis meses a um ano de detenção, e multa.

Lei 12408 de 25 de Maio de 2011.
Art. 6o  O art. 65 da Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, passa a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 65.  Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa.
§ 1o  Se o ato for realizado em monumento ou coisa tombada em virtude do seu valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena é de 6 (seis) meses a 1 (um) ano de detenção e multa.
§ 2o  Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional.”

Como se pode perceber, assim como a capoeira, a pichação, o grafite, a dança de rua, o funk, o rap, entre outras manifestações culturais genuínas, são expressões da cultura dos oprimidos que nasceram da luta do povo contra a opressão, principalmente no espaço urbano, no qual há muito tempo se concentra a população brasileira, com suas diferenças e seus conflitos.
 
Seguindo um movimento legal-institucional semelhante à capoeira e sua lenta absorção pela cultura dominante (a branca), até bem pouco tempo essa prática de marcar os muros alheios com tinta era criminalizada, pois feria o princípio central do direito civil que é a propriedade privada. Em maio de 2011 o grafite passou a ser tolerado pela legislação – diga-se, pela sociedade – enquanto o pixo continuou a ser criminalizado.

Agora, grafite e pixo são a mesma coisa? Os grafiteiros são pichadores. Até bem pouco tempo grafite e pichação eram criminalizados da mesma forma. Em função de um movimento ideológico promovido pelas elites, de diferenciação cultural entre pixo e grafite, iniciou-se um processo de aceitação social da modalidade então denominada de grafite e criminalização do pixo. O grafite foi “elevado” a categoria de arte enquanto o pixo continuou sendo criminalizado. Assim como o rap ácido de Sabotage - assassinado por traficantes - hoje se tornou um produto caro e bem pago pela indústria cultural, o hip hop, o break, a street dance, são expressões culturais conhecidas como arte de rua ou arte urbana. O pixo é o grito de rebeldia e de socorro de uma juventude excluída, que ali encontra um dos únicos canais de afirmação de sua identidade, deteriorada pela sociedade que os exclui e insiste em confina-los, cada vez mais, nos guetos, nos espaços de convivência periféricos e desvalorizados socialmente. É o grito de socorro de quem permanece invisível – a não ser nas estatísticas policiais – e se esforça para se fazer perceber na sociedade que tem (e dá) valor.
Todas estas manifestações, inclusive o pixo, fundamentam-se na crítica social contra a desigualdade, a discriminação e a repressão policial. Quando a manifestação destas formas artísticas se dá, em geral, dentro de certas regras sociais, certos espaços e tempos definidos, de forma planejada e, por vezes, consentida, é aceita socialmente. Nesse sentido, o grafite é aceito socialmente e, por este motivo, não se coloca, em geral, fora das regras sociais. O grafiteiro “deixa” de ser o pixador. Tem certo prazer em dizer que “já não faz mais aquilo”, que agora “faz arte e não sujeira”. Já o pixo não é arte. O pixo é feio, pois expressa o lado feio da sociedade. É a expressão legítima e simbólica da luta de classes. Esse é o lado feio e sujo da sociedade. A sujeira que a elite sempre se esforçou em esconder. A repressão aos pixadores é, portanto, a expressão concreta da luta de classes na medida em que provém da parte que detém o poder contra aquela que é oprimida e, principalmente, que tenta, de alguma forma, ainda que simbólica, resistir à opressão.
A repressão aos capoeiras foi tanto mais agressiva quanto maior for o dano causado no patrimônio público ou particular. A repressão aos pichadores também seguirá essa mesama lógica de século e meio atrás, pois a luta de classes de hoje é a mesma luta de classes de século e meio atrás, quando Marx a descreveu, e é a mesma que ele mesmo afirmou existir desde sempre na história. A história da humanidade é a história da luta de classes. Muitos já tentaram, mas os fatos demonstram que é impossível falsear essa hipótese. Portanto, até que se prove o contrário, a luta de classes como motor da história é uma verdade cientificamente comprovada pelas ciências sociais.
Portanto, a cruzada contra o pixo, promovida pelo atual prefeito asséptico e arrumadinho da capital paulista é simplesmente a nova cara, a nova expressão da velha luta de classes, cujos atores, inclusive, são os mesmos; de um lado os poucos herdeiros da casa grande quatrocentona (de uma das quais Sua Excelência descende, inclusive) e de outro, a enorme massa dos despossuídos e bestializados de sempre.

Estamos vivendo tempos sombrios, mas a luta é grande e o inimigo muito astuto. Não devemos perder o foco e nos perdermos nos emaranhados de conceitos e ideias “bacanas” e sedutoras que só servem para nos iludir. Grafite e Pixo não podem ser diferenciados ideologicamente sob pena de esvaziamento cultural e perda de sentido histórico e simbólico de UMA manifestação cultural genuína e repleta de significado social e político. Não podemos deixar que ocorra a mesma coisa que aconteceu com a capoeira.
Pixo é arte. Grafite é pixo. A arte é dita pelo povo brasileiro, que é preto, pobre, sofrido e genial. A arte não pode ser ditada por um burocrata de gabinete, filhote da burguesia e da ditadura branca.

Diga Não! Diga não à essa perversa diferenciação ideológica que querem impor. Dividir para poder dominar. Criminalizar o Pixo e aceitar o grafite é uma estratégia perversa. A divisão de uma classe social é a principal arma da casa grande para desmobilizar a luta. Ao “elevar” uma parcela de uma classe a uma categoria “superior”, a elite golpeia ferozmente o movimento. Grafiteiros: não caiam nessa armadilha! Não se deixem seduzir pelo canto da sereia! Mantenham-se fiéis ao movimento! Vocês não serão melhores nem mais artistas que os pixadores! Vocês são os próprios pixadores!. Com essa estratégia a elite visa matar dois coelhos com uma só cajadada: controlar os “artistas” grafiteiros e prender os “criminosos” pixadores. Como a muito tempo não se vê nesse país, a elite treme com vocês! Vocês metem medo na elite! Vocês são os jovens que ocuparam as ruas em 2013! E não foi só pelos 20 centavos! Vocês são os jovens que ocuparam as escolas em 2015! Vocês são a única esperança desse país! Não se deixem enganar nem por este e nem por outra tentativa sórdida de desmobilização que vem do andar de cima!


 Pixo é arte! Só existe pixo! Não se deixe enganar! Grafite não existe!





Fonte das imagens:




quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Fera ferida: PCC strikes again?

fonte:


Em 2006 Marcola e a cúpula do PCC foram transferidos da Penitenciária de Avaré para o Presídio de Pres. Venceslau. A capital e todo o Estado de São Paulo conheceram a fúria do Primeiro Comando da Capital no evento que ficou conhecido como Crimes de Maio, com um saldo de 564 mortos, sendo 59 policiais e agentes públicos. O caos social se instalou em toda a população paulista em função da sensação de insegurança diante da violência do crime organizado e da impotência do Estado em garantir a lei e a ordem. Segundo o ex-Delegado Geral da Polícia Civil, Marco Antonio Desgualdo, “a ordem foi ir pra cima. Você tinha que apagar a fogueira. A polícia deu a resposta”.(1)

Pouco mais de dez anos se passaram e a maioria dos crimes de maio ainda está sem solução. Essa situação acabou gerando o movimento Mães de Maio, que luta para provar a inocência de seus filhos mortos e por justiça contra o excesso de violência das forças policiais.(2)

Pouco tempo depois de Maio de 2006, o Estado paulista retomou o controle da situação após garantir que os líderes do PCC não seriam torturados na prisão(3). Apesar do governo de SP negar que isso tenha sido um “acordo com bandidos”, o fato é que as ações do PCC, desde então, se mantiveram dentro da normalidade, ou seja, sem comprometer a autoridade do Estado (quer dizer, em termos weberianos, sem comprometer o poder do monopólio legítimo da força física do Estado).

Nesses dez anos de “calmaria”, a população carcerária no Brasil aumentou quase 50%, estando entre as quatro maiores do mundo(4). Foi nesse tempo também que o PCC estendeu seus domínios por quase todo o Brasil e extrapolou os limites nacionais, já atuando em outros países da América do Sul(5). Já a polícia brasileira – especialmente a paulista – conseguiu nesta última década a proeza de se tornar a polícia que mais mata no mundo(6).

Enfim, tudo caminhava normalmente e de forma controlada na guerra cotidiana; para cada policial morto, por exemplo, quatro pessoas iam tombando(7). Para alguns governantes, essa é uma contabilidade exitosa. Mas em 14/12/2016, a pouco mais de duas semanas, o vespeiro foi balançado. O núcleo do PCC, incluindo Marcola, foi transferido do Presídio de Pres. Venceslau para o Presídio de Pres. Bernardes, ficando em regime disciplinar diferenciado (RDD), que é a forma mais rígida de isolamento carcerário.(8)

Vespas a mil, zangões incomunicáveis, eis que, em pouco mais de duas semanas após o isolamento das cabeças dessa Hidra paulista, no 1º dia de 2017, uma rebelião no Complexo Presidiário Anísio Jobim em Manaus acaba com um saldo de 56 mortos, vários decapitados e, incrivelmente, todos membros do Primeiro Comando da Capital paulista, lá no coração da selva amazônica.(9)

Esse fato curioso revela que existe algo a mais nessa rebelião de presidiários. Revela que há uma formidável guerra sendo travada entre facções no submundo do crime organizado no Brasil; uma guerra pelo controle de território, poder e influência. E como toda guerra, é sangrenta e funciona com a mesma lógica que orienta qualquer outra disputa por poder; a lógica das alianças, acordos, traições, violência e morte.

Não é difícil concluir que, aproveitando-se do momento de fraqueza do PCC, as facções criminosas CV (Comando Vermelho) do RJ e a FDN (Família do Norte), se uniram para frear o incrível avanço do PCC, notadamente na região Norte do país. Agora, como um rato no canto da parede sob as garras dos gatos, o PCC é acuado em Manaus.

Essa que já é considerada a maior rebelião de presos do país – desconsiderando Carandiru que foi, na verdade, um massacre do Estado, uma “limpeza” em moldes fascistas tupiniquins – ela não é uma rebelião qualquer de presidiários reivindicando melhores condições ou manifestando-se contra a superlotação como já dito. É um episódio que revela uma audaciosa operação do crime organizado na luta pelo poder. Faz parte de um conflito travado num espaço prisional mas que, de fato, reflete-se em nosso próprio espaço de vida cotidiana; o crescimento do crime organizado reflete o crescimento dos furtos em nossa vizinhança, dos roubos e latrocínios diários, dos brutais assassinatos, execuções e também das simples “passadas” de droga em uma “boca” qualquer; reflete-se nos acordos e conchavos corruptos palacianos e também nos socos, pontapés e estupros das putas nas ruas, das próprias esposas dentro de suas casas e de suas crianças.    

É evidente que a luta contra o crime organizado é dificílima e não admite erros ou qualquer tipo de submissão. A sociedade precisa do Estado para haver segurança entre as pessoas e instituições. E o Estado precisa manter seu poder e autoridade para simplesmente existir. Mas esse poder e autoridade não pode ser ilimitado; é preciso que sejam respeitados os direitos e as garantias individuais e coletivas. Somos cidadãos, estamos em meio ao fogo cruzado nessa guerra e não podemos admitir danos colaterais ou balas perdidas.  

O PCC sofreu um duro golpe e está ferido, mas não está morto. Uma fera ferida é ainda mais perigosa, pois o que não mata fortalece... e enfurece. E a fúria é ainda maior quando se sente que o golpe sofrido foi desferido na “trairagem”.(10)

Enfim, como gato escaldado tem medo de água fria, passados dez anos de um mês de Maio em Estado de barbárie hobbesiana, a sociedade está novamente muito apreensiva. E o crime organizado, que cresceu no vácuo de um Estado silente quanto ao tráfico nas portas de escolas, quanto à passagem de armas nas fronteiras e quanto à permissividade de celulares e armas dentro dos muros das cadeias, já é muito maior e muito mais preparado do que há uma década. E voltando a falar em Estado, esse não pode falhar!... não novamente.


Notas:


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Entenda (?) o conflito na Síria






Estados Unidos
Contra: Bashar Al-Assad e Estado Islâmico (EI).
Apoia: grupos rebeldes considerados moderados e os curdos. É líder de uma coalizão militar “árabe” contra o EI, formada por Arábia Saudita, Bahrein, Jordânia, Catar e Emirados Árabes Unidos.
Interesses: 1) políticos: consolidação da influência política no Oriente Médio com a pretensa queda da última ditadura árabe não islâmica na região; 2) militares: controle do território sírio, onde há a única base militar russa no Mediterrâneo; 3) econômicos: controle do território de uma gigantesca jazida de petróleo ainda inexplorada, entre Síria e Chipre.
Conclusão: Eu é que mando na porra toda!


Rússia
Contra: Estado Islâmico e outros rebeldes.
Apoia: Bashar Al-Assad.
Interesses: garantia do território onde está sua única base militar do Mediterrâneo e por onde passam importantes oleodutos e gasodutos russos, além de manutenção da zona de influência russa no Oriente Médio segundo a estratégia de equilíbrio do poder.  
Conclusão: Manda o krai!... aqui é ZL véi!... e quem disse que a Guerra Fria acabou?


Irã
Contra: Estado Islâmico e insurgentes sunitas
Apoia: governo de Bashar Al-Assad
Interesses: manter sua área de influência no Oriente Médio em oposição à Arábia Saudita e EUA.
Conclusão: vale tudo contra o Grande Satã (EUA)


Arábia Saudita
Contra: Bashar Al-Assad.
Apoia: rebeldes sunitas (inclusive do EI).
Interesses: parceira dos EUA (ué, mas EUA não é contra o EI?... será?), visa consolidar poder geopolítico na região, eliminando a última ditadura árabe não islâmica (Síria) e enfraquecendo seu maior rival (Irã), uma vez que Egito, Líbia e Iraque já tombaram sob o controle de seu aliado EUA e Mundo Livre S/A.
Conclusão: catioríneo dos EUA


Turquia
Contra: governo de Bashar Al-Assad e separatistas curdos.
Apoia: coalizão liderada pelos EUA e rebeldes.
Interesses: país árabe com pretensões de entrar na UE, aliado dos EUA desde os tempos da Guerra Fria.  
Conclusão: é um país dividido em dois continentes que possui uma eterna crise de identidade: não sabe se é ocidental ou oriental: Escolheu ser um habib baba-ovo dos EUA e da UE.


EI (ISIS)
Contra: todos os infiéis não pertencentes ao seu manicômiozinho
Apoia: ninguém
Interesses: acabar com os infiéis, inclusive os muçulmanos de verdade.
Conclusão: não tem conclusão; são apenas um bando de loucos com armas fornecidas por potências mais loucas ainda.  



E aí, entendeu?



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

País irmão

Flamengo e Camarões: um engenheiro e uma paixão

Comunidade Baka em Lomié, Camarões.
Disponível em: Acesso em 29.ago,.2016


O país tem uma população majoritariamente jovem, negra, alfabetizada e católica. São famosos por sua alegria, jovialidade e otimismo. Sua seleção de futebol é sempre sensação nas competições internacionais, apesar de ter suas maiores estrelas defendendo clubes europeus. Para competir nas Olimpíadas Rio 2016, a delegação olímpica deste país contou com a presença de 24 atletas.

Apresenta significativa exportação de produtos primários, produtos da agricultura, pecuária e mineração, inclusive petróleo. A exploração econômica desses produtos se dá principalmente por meio de empresas multinacionais europeias e estadunidenses. Ocupa o 13º lugar no ranking do PIB-produto interno bruto entre os países do continente e o 96º lugar no mesmo ranking em relação ao resto do mundo, figurando na frente de países como Mônaco, Liechtenstein, Letônia, Estônia, Bermudas, entre outros. No entanto, apesar das riquezas naturais exploradas, a população apresenta desenvolvimento humano baixo, ocupando a posição 153º no IDH, entre os 188 países do ranking da ONU.

É uma República parlamentarista formalmente democrática, com eleições presidenciais regulares. O país tem severas leis, inclusive com pena de morte para diversos crimes e prisão perpétua para a prática homossexual, considerada crime grave.

A esta altura já deu pra perceber que estamos falando de Camarões; um país e um povo muito semelhante ao nosso. 

Neste país africano o presidente Paul Byia, do partido da União Democrática do Povo Camaronês governa ininterruptamente há 34 anos, sendo reeleito sucessivamente durante sete mandatos. Byia ascendeu ao poder após uma implicada renúncia do primeiro presidente dos Camarões, Ahmadou Ahidjo em 1982, do qual era primeiro-ministro ou seja, seu homem de confiança.

Ahidjo liderou a conquista da independência do povo camaronês após um século de dominação colonial inglesa e francesa e, antes, alemã. Desde sua posse, o presidente Byia desenvolve uma intensa política de propaganda no sentido de eliminar do imaginário político da população camaronesa os símbolos do popular ex-presidente Ahidjo, retirando até mesmo a referência ao antigo líder do Hino de Camarões. Perseguido pelo antigo amigo e aliado político e julgado à revelia a pena de morte, Ahidjo exilou-se na França. Tentou retomar o poder desde então, sem sucesso, e morreu pouco tempo depois, em 1989, no Senegal.

O presidente Byia reprimiu diversas manifestações civis desde sua ascensão ao poder e hoje, há mais de três décadas no comando do país, legitimado politicamente por contínuas eleições formalmente democráticas, governa de forma estável num país extremamente desigual, no entanto, pacificado. Apesar de contemplar todos os processos democrático-formais nos pleitos, Byia é acusado por observadores internacionais de fraudes em várias eleições, além de desrespeito aos direitos humanos. Seu estilo austero e autoritário de governo deve manter Camarões no caminho de seu atual destino, ou seja, sem maiores transformações econômicas ou sociais que reorientem a economia para uma situação de independência do capital internacional e que promovam uma maior igualdade de oportunidades ao povo camaronês, como acesso aos direitos sociais fundamentais - saúde, educação e transporte de qualidade.


Enquanto isso, o iluminado povo camaronês segue trabalhando, produzindo riquezas, lutando pelo pão de cada dia, com muita dificuldade, mas sempre otimista, alegre, confiante; em suma, pacificado – ou melhor, resignado. Um povo que segue sonhando com um futuro melhor para os seus filhos, com o ouro olímpico talvez e, quem sabe um dia, com a tão desejada copa do mundo.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A geopolítica do petróleo e a situação política brasileira

Fatos:

1971 - Nixon, presidente dos EUA quebra o sistema de Breton Woods, acabando definitivamente com o padrão-ouro do dólar, numa tentativa de controlar a inflação advinda da sangria do tesouro americano pelos países europeus que buscaram diminuir a influência dos EUA na Europa ao diminuírem suas reservas de dólares, devolvendo os dólares aos EUA e resgatando o ouro do Fort Knox. Ou seja, o chamado "Choque Nixon" é um verdadieor "calote" nos europeus, tornando o dólar uma moeda-papel, um simples título fiduciário.   

1974 - Nixon, presidente dos EUA e o Rei Faissal da Arábia Saudita fazem um acordo que determina que este país, o maior produtor de petróleo do mundo, comercialize seu produto apenas com dólares. Nasce o petrodólar, o dólar do petróleo. Esse acordo visou ao mesmo tempo garantir aos sauditas a venda de seu ouro negro, mas também foi o novo lastro monetário da moeda estadunidense, uma vez que o dólar já havia deixado de ter valor real desde 1971 com o "Choque Nixon". Além disso, o comércio internacional é realizado também em dólar, o que garante aos EUA a prerrogativa de ser o único país do mundo a não sofrer com sua dívida externa (que aliás, é a maior do mundo), pois podem imprimir quanto papel-moeda quiserem sem causar inflação ou qualquer desestabilização em sua economia. Ou seja, a questão do petróleo para os EUA é mais do que uma questão energética estratégica, é uma questão de manutenção de sua pujança econômica, que lhes permitem usufruir de seu american dream

1974/Agosto - Neste mesmo ano, Richard Nixon sofre um impeachment. O primeiro impeachment da história das repúblicas modernas. O motivo da queda do homem que salvou a economia dos EUA de um colapso, dando um "calote" nos europeus foi ele ter mandado colocar escutas telefônicas nos escritórios de opositores políticos. 

1974/Setembro - Gerald Ford, sucessor de Nixon, emitiu um perdão para o ex-presidente estadunidense.  

1990 – EUA invadem o Iraque para “libertar o povo do Kuwait da ditadura de Saddam Hussein”, que havia invadido aquele país 7 meses antes. O Kuwait tem pouco mais de 2 milhões de habitantes. É um país que resume-se a uma cidade e uma cidade que resume-se a um porto. Mas é o porto de acesso do continente ao Golfo Pérsico, porta de saída de todo o petróleo do Oriente Médio para os EUA e ocidente. O Kuwait é uma espécie de protetorado estadunidense. A Quinta Frota da marinha dos EUA protege o Golfo Pérsico, Mar Vermelho, Mar da Arábia e costa leste da África até o sul do Quênia.[1]

1994 à 2001 – no governo FHC, tendo José Serra como Ministro do Planejamento, houveram diversas tentativas de privatizar a Petrobrás. Tentaram até mesmo mudar o nome da empresa para Petrobrax!.[2]

2001/11 de Setembro – atentado às Torres Gêmeas em NYC que redefiniu a estratégia estadunidense de hegemonia global num movimento chamado de Guerra ao Terror. Atribuído à Al Qaeda (grupo terrorista afegão, cujo líder era um megaempresário saudita com amplos negócios nos EUA, com ligações inclusive com a família Bush, do Texas no setor petrolífero). O atentado até hoje suscita controvérsias e teorias conspiratórias por ter sido realmente inusitado e ter servido como justificativa para o período subsequente da política xterna dos EUA chamada Guerra ao terror. Uma das mais recentes teorias conspiratórias diz respeito a três importantes jornalistas estadunidenses que investigavam as reais circunstâncias do ataque na época e que morreram em condições suspeitas em 2015, quase todos no mesmo dia. Enfim, estas são apenas suposições, obviamente refutadas pelo establishment.[3]   

2001/07 de Outubro – Invasão dos EUA ao Afeganistão, país soberano e governado pelos Talibãs, em “busca” de Osama Bin Laden. Tal operação contou com a intervenção da OTAN-Organização do Tratado do Atlântico Norte que, pela primeira vez desde sua criação em 1949, extrapolou os seus limites geográficos de ação militar e a sua missão estratégica de contenção do comunismo na Europa. A invasão do Afeganistão foi precedida por uma extensa propaganda global contra o Talibã, cuja crítica se concentrou no preconceito de gênero deste regime muçulmano. O Talibã havia tomado o poder no Afeganistão, com a ajuda direta dos EUA. após a retirada das tropas soviéticas do país, no final da década de 1980, A Arábia Saudita, maior produtor de petróleo do mundo e maior parceiro comercial dos EUA e aliado político desta potência na busca pelo equilíbrio de poder no Oriente Médio é a única Monarquia absolutista do planeta e é considerado o país que mais oprime as mulheres, segundo diversos organismos internacionais ligados aos direitos humanos e de gênero. A mulher saudita não tem nem mesmo o direito de dirigir automóveis. O que demonstra tanto a falácia dos reais motivos alegados para a invasão do Afeganistão quanto os reais motivos do alinhamento dos sauditas à Casa Branca.

2002 – Lula é eleito Presidente da República por meio de eleição democrática e inicia um governo popular, de caráter social, buscando novas alianças externas, procurando escapar tanto da zona de influência geopolítica quanto da dependência econômica dos EUA e UE. Aproximações com a China e outros países emergentes (Rússia e Índia) e outros do mundo socialista (Cuba, Bolívia e Venezuela), foram colocando o Brasil num papel de protagonista tanto na América Latina, junto com estes governos em busca de maior independência frente à hegemonia dos EUA no continente quanto no mundo das economias emergentes, sendo um dos países mais promissores dos BRICS, grupo de países emergentes que congrega Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Este movimento “transgressor” da tradicional política brasileira de alinhamento aos EUA (desde Getúlio Vargas, e reforçado em 1964) e aproximação a outros players globais, principalmente aos socialistas latino-americanos foi denominado, pelos setores reacionários da direita, de “bolivarianismo”.

2004 – Hugo Chávez (Venezuela) e Fidel Castro (Cuba) criam a ALBA (Aliança Bolivariana para as Américas). O Brasil não participa oficialmente dessa aliança.

2006 – Lula é reeleito presidente após promover uma verdadeira revolução social no pais, em seu primeiro mandato, retirando mais de 30 milhões de brasileiros da situação de pobreza extrema e colocando o Brasil como destaque num novo cenário geopolítico internacional, consolidando sua posição de liderança no Mercosul e protagonizando importantes ações no âmbito dos BRICS.

2006 – É executado por um tribunal do governo interino do Iraque, o líder Saddam Hussein, após ter sido capturado em função da invasão do país por uma coalizão militar liderada pelos EUA. Tal intervenção não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU por falta de provas sobre a existência de armas químicas no país, motivo alegado pelos EUA para invadirem um país soberano, no início da Guerra ao Terror, após o 11 de Setembro de 2001 de NY. Jamais foram encontradas provas da existência dessas armas e os EUA ainda ocupam o país, amargando uma situação de permanente conflito para manter a frágil estabilidade política necessária para seus interesses no território ocupado. O Iraque é membro fundador da OPEP, um dos maiores produtores de petróleo do mundo e possui a terceira maior jazida desse recurso natural estratégico. Além disso, na época, Bagdá – hoje destruída – estava se tornando o centro da cultura islâmica, numa espécie de restauração da Escola de Bagdá, centro da ciência e cultura medieval, a partir do classicismo grego, em um tempo em que a Europa ainda jazia sob as “trevas” do misticismo. Congregando intelectuais muçulmanos contrários à hegemonia estadunidense na região, Bagdá foi destruída e, com ela, toda e qualquer pretensão de unificação cultural do mundo árabe na atualidade. Semelhante movimento ocorreu na década de 1960 no Egito, com a tentativa de consolidação do Movimento Pan-Arabista por Gammal Abdel Nasser – considerado um Saladino moderno, o sultão que retomou Jerusalém dos cruzados no séc. XII.  Seu sucessor, Anwar Sadat foi assassinado em 1981 e o seu sucessor, Hosni Mubarak, renunciou em 2011 durante a Revolução Egípcia – marco inicial da Primavera Árabe - e atualmente encontra-se preso. Desde 2013 o país é controlado pelo General Abdul Fatah Khalil Al-Sisi e mantém relações diplomáticas com o ocidente, inclusive com Israel. A Liga Árabe – sucessora do Pan-Arabismo e cuja sede é no Cairo – atualmente exerce quase nenhuma influência no cenário geopolítico mundial.  

2007 – descoberta do pré-sal brasileiro. O pré-sal brasileiro é a maior reserva de petróleo pré-sal do mundo, pertencente a um único país, cuja empresa petrolífera, a estatal Petrobrás, uma das maiores do mundo, detém a tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas, além do monopólio de exploração do petróleo no Brasil.
2008 – reativação da 4ª frota naval estadunidense, no Pacífico Sul (desativada desde 1948), seguindo a estratégia naval desenvolvida pelo Almirante Turner[4] sobre a clássica teoria de Mahan[5] sobre o poder marítimo. Turner define como “nova” missão da marinha estadunidense: a presença naval, a projeção de poder e o controle do mar como estratégia de dissuasão.  
2009 – início das investigações sobre o doleiro Alberto Youssef, que redundaria em sua prisão em
2014, no início da Operação Lava Jato e, na sequência, naquilo que foi denominado "Petrolão", o esquema de corrupção montado em torno da Petrobrás.
2010 - Lucro da Petrobrás é quase 4 vezes maior que em 2001, último ano do governo de FHC, que queria privatizar a companhia, sob alegação de prejuízos constantes.

2010 – Julian Assange, fundador do site Wikileaks, publica documentos ultrassecretos do governo dos EUA sobre espionagem. Perseguido pelos EUA, Assange permanece refugiado na embaixada do Equador em Londres, de onde não pode sair, sob pena de ser preso pelas autoridades dos EUA e seus aliados. 

2010 – Brasil é convidado pela OPEP a integrar a organização como um país membro, pois vem se tornando um dos grandes produtores de petróleo do planeta e, principalmente, dono de uma das maiores jazidas de petróleo da Terra, inclusive a maior pré-sal do mundo. O governo brasileiro do PT não aceitou este convite, pois isso envolveria o alinhamento com os EUA e UE, numa posição de dependência permanente ao capitalismo ocidental. 

2010 - Revolução de Jasmin, na Tunísia, por mais liberdade e contra a ditadura do Presidente Zine Abdine Ben Ali, há 23 anos no poder. Este movimento foi o estopim da chamada Primavera Árabe, que promoveu, até setembro de 2012, uma verdadeira revolução no cenário político do mundo árabe, afetando praticamente todos os países do Oriente Médio e Norte da África. O resultado da Primavera Árabe foi muito benéfico para a manutenção das estruturas de produção e distribuição de petróleo para o ocidente e para a construção de novas estruturas nos regimes capitulados, como é o caso da Líbia. "Primavera Árabe não avançaria sem o encorajamento dos EUA", é o que afirma o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira em seu livro "A segunda Guerra Fria" (Ed. Civilização Brasileira, 2013).

2010/Outubro - eleição de Dilma Roussef, ex-ministra de Lula, para presidenta da República.

2010/Outubro – Brasil rejeita a ampliação da OTAN-Organização do tratado do Atlântico Norte para o Atlântico Sul. Proposta de “atlantização” da OTAN foi feita pelos EUA, principal membro da aliança militar criada em 1949 para conter o avanço do comunismo no hemisfério Norte, no contexto da Guerra Fria. Recentemente a OTAN interferiu até mesmo no Afeganistão, em 2001, no contexto do início da política estadunidense de Guerra ao Terror. Nelson Jobim, o então Ministro da Defesa de Dilma afirmou que a OTAN – orientada por interesses específicos - não pode substituir a ONU na tarefa de pacificação global.   

2011/Maio – assassinato de Osama Bin Laden no Paquistão, por forças militares dos EUA que invadiram este país soberano numa ação unilateral secreta da CIA-Central Intelligence Agency e JSOC-Joint Special Operations Command, sem levar em conta o aval do Conselho de Segurança da ONU. Além disso, foi a primeira invasão dos EUA em um país soberano detentor de poder nuclear. Não houve reação efetiva por parte do Paquistão, tampouco da ONU. Tal ação foi considerada uma afronta à autoridade da ONU, tendo os EUA reincidindo em uma ação militar desautorizada, precedente aberto pela invasão do Iraque. Cria-se nesta ação no Paquistão um outro precedente, que é a invasão desautorizada de um país soberano, detentor de poder nuclear, sob a alegação de busca de um indivíduo, considerado terrorista, no contexto da Guerra ao Terror. 

2011/Outubro – linchamento de Muammar Khadafi, líder da Líbia, país membro da OPEP e dono de uma entre as dez maiores jazidas de petróleo do mundo. Khadafi já havia sido  considerado o  homem mais “perigoso” do mundo pela CIA (antes de Bin Laden, que criou seu império a partir do apoio da CIA na resistência dos seus Mujahidin contra o domínio soviético no Afeganistão no contexto da Guerra Fria). Khadafi foi também Presidente da União Africana, organização que defende a eliminação do colonialismo, a soberania dos Estados africanos e a integração econômica, além da cooperação política e cultural no continente. O Pan Africanismo de Khadafi é análogo ao Pan-Arabismo de Nasser; duas frentes de unificação contrárias aos interesses dos EUA. Atualmente, com a eliminação (ou cooptação) de suas lideranças, estas duas frentes foram completamente desestabilizadas (ou anuladas). Os EUA conseguiram um relativo equilíbrio geopolítico tanto em África quanto no Oriente Médio,  principalmente pelo seu apoio permanente à Israel, único Estado nuclear da região e único Estado nuclear fora do grupo das 5 maiores economias do planeta.  
  
2013/Mar – morte de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, país membro da OPEP e dono da maior jazida de petróleo do mundo. Instaura-se uma crise política no país, Nícolas Maduro assume a presidência e mantém a política de hostilidade aos EUA. Tem início o enfraquecimento do chavismo na Venezuela e do bolivarianismo na América Latina.

2013 – Edward Snowden, ex-agente da NSA-National Security Agency (organização ultra-secreta dos EUA, criada em 1952 e só “descoberta” em 1982 pelo público em geral, inclusive pelos cidadãos estadunidenses) choca o mundo ao revelar, por meio do site Wikileaks, documentos ultrassecretos da NSA. Snowden encontra-se exilado na Rússia, de onde não pode sair, sob pena de ser preso pelas autoridades dos EUA e aliados.

2013/Set - O site Wikileaks revela que os EUA grampearam os telefones da presidenta do Brasil, Dilma Roussef. Espionagem de um chefe de estado de país aliado é equivalente a declaração de guerra. No entanto, não é essa a linha política do Itamarati.  

2013/Set- A revista Carta Capital denuncia que a presidenta Dilma não foi a única a ser grampeada pelos EUA. Afirma que que altos executivos da Petrobrás também foram alvo dos grampos da NSA. 

2013/Set – Dilma cancela sua primeira visita aos EUA em função do crime internacional de espionagem praticado por aquele país contra ela, uma governante de um país aliado. No entanto, desiste desse cancelamento e decide “perdoar” o Presidente Barack Obama pela afronta que, em outros países menos cordiais (ou menos submissos), já seria motivo para uma declaração de guerra. Mas como declarar guerra a uma potência nuclear uma vez que não possuímos bomba atômica? Enfim. Não havia muita coisa a fazer a não ser um charminho e colocar o rabo entre as pernas.     

2014 – queda vertiginosa do preço do barril de petróleo em função da entrada no mercado do óleo de xisto, produzido pelos EUA, atual campeão de produção deste tipo de petróleo. Houve também a retomada do comércio de petróleo iraniano na Europa, inundando o mercado e pressionando as cotações para baixo.

2014/Março – Caso Passadena, envolvendo Dilma Roussef, então presidente do Conselho da Petrobrás em 2006, quando esta comprou a refinaria nos EUA com valor superfaturado.

2014/Março – início da Operação Lava jato com a prisão de Paulo Roberto Costa, ex-Diretor de abastecimento da Petrobrás.

2014/Outubro - reeleição da presidenta Dilma, que vence o opositor Aécio Neves por pequena margem de diferença. O Congresso Nacional eleito é, em termos gerais, contrário ao governo do PT, o que gera um grande obstáculo à governabilidade. 

2014/Novembro – a esquadra britânica, aliada dos EUA, realiza exercícios militares navais, na s proximidades das Ilhas Malvinas, costa da Argentina, Pacífico Sul.

2015/Julho - criação do Banco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) numa tentativa embrionária de articulação econômico-financeira alternativa ao FMI e Banco Mundial, dominados pelos EUA. 

2015/Julho – reconhecimento, pelo presidente Barack Obama, de que o Irã é uma potência regional do Oriente Médio, em troca de frearem seu projeto nuclear. A intenção dos EUA é o equilíbrio de poder na região a fim de garantir a circulação terrestre de petróleo, além da aproximação com este importante país para os interesses estadunidenses. O Irã é membro da OPEP, um dos dez maiores produtores de petróleo do mundo e conta com a terceira maior jazida mundial desse recurso.

2015/Novembro – os EUA realizam exercício militar com seu porta-aviões USS George Washington, da 4ª Frota, na costa do Rio de Janeiro. 


2016/Fevereiro – aprovado pelo Senado projeto do Senador José Serra que tira da Petrobrás o monopólio de exploração do pré-sal.

2016/Maio -  Dilma é afastada da presidência da República pelo processo de impeachment por crime de responsabilidade envolvendo supostas irregularidades fiscais no orçamento geral da união, chamadas de "pedaladas fiscais" que nada mais é do que um rearranjo contábil-orçamentário e não desvio de verbas. 

2016/Maio – com a crise econômica na Venezuela provocada pela queda do preço do barril de petróleo - controlado pela OPEP em baixos níveis com a finalidade de desestabilizar a cara produção de óleo de xisto dos EUA - o governo popular chavista de Nícolas Maduro foi ameaçado. Nas últimas eleições legislativas, Maduro perdeu o apoio do Congresso e se viu às voltas com uma crise econômica sem precedentes que lhe custa a popularidade, o elemento mais importante de um governo popular. Venezuela é o único país da OPEP – com exceção da Rússia – que ainda resiste ao poder de influência direta dos EUA. Lembrando que o Brasil (governo Lula), conseguiu status de grande produtor mundial de petróleo, foi convidado pela OPEP a ingressar neste seleto "clube" e resistiu à própria OPEP por saber que esta organização nada mais é do que uma "sucursal" dos interesses petrolíferos dos EUA. 

2016 – Maio – José Serra, o autor do projeto de privatização e internacionalização da Petrobrás assume o Ministério das Relações Exteriores do Brasil no governo interino de Michel Temer. Nunca o projeto das forças políticas brasileiras – aliadas ao capital internacional - que pretendem privatizar e internacionalizar todas as empresas nacionais (principalmente a Petrobrás) esteve tão consistente e próximo de consolidar-se. Nem mesmo no governo neoliberal de FHC este projeto esteve tão perto de se consumar.  

2016/Junho – Senado Federal afirma em relatório, após análise técnica, que não foram praticadas irregularidades fiscais na gestão da presidenta Dilma. As pedaladas fiscais são os crimes alegados pela oposição no processo de impeachment da presidenta da República. Diversos membros do governo interino de Michel Temer, inclusive ministros recém-empossados, além de vários membros do Congresso que aprovou o impeachment “contra a corrupção” foram afastados, cassados e até presos neste primeiro mês após o afastamento da presidenta. Cabe agora ao Senado a tarefa de ratificar ou anular o impeachment de Dilma.


2016/Jul – Começa a venda dos campos do pré-sal brasileiro. Petrobrás perde definitivamente o monopólio de exploração do petróleo brasileiro. O primeiro comprador desse "pedaço" da Petrobrás foi a empresa Statoil, que arrematou o campo de Carcará, por US$ 2,5 bilhões.   

2016-31 de Agosto - O Senado Federal aprova o impeachment de Dilma Roussef e ela é definitivamente afastada da presidência da República. Em seu lugar assume o vice-presidente Michel Temer da aliança com o PMDB. 

2016- 02 de Setembro - Dois dias depois de aprovar o impeachment da presidenta eleita Dilma Roussef, o Senado Federal brasileiro aprova lei que transforma as chamadas "pedaladas fiscais" em simples processos administrativos da gestão pública. Portanto, nenhum outro governante poderá ser destituído por este motivo. 


Petróleo no Mundo: Ranking das Maiores Jazidas do Mundo em Bilhões de Barris
Venezuela
296,5
Arábia Saudita
264,5
Irã
151,1
Iraque
143,1
Kuwait
101,5
Emirados Árabes Unidos
97,8
Rússia
79,4
Líbia
47,0
Fonte: Opep
Disponível em: acesso em: 15.mai.2016.





Considerações

Atualmente os EUA conseguiram o controle – por meio de alianças diplomáticas ou força militar – de 8 entre os 10 maiores produtores e detentores de jazidas de petróleo do mundo. Destes, pode-se dizer que somente Rússia está blindada contra a influência direta dos EUA. O outro, a Venezuela, enfrenta sua pior crise econômica – e política – das últimas duas décadas em função da queda e manutenção dos baixos níveis do preço do barril de petróleo. O Brasil, atualmente, apesar de não pertencer à OPEP nem estar colocado entre os 10 maiores produtores e detentores das maiores jazidas de petróleo do mundo é o país que apresenta o maior potencial de crescimento dentro do principal setor energético do mundo em função da descoberta e início da exploração do pré-sal. Os EUA atualmente vêm reforçando suas posições estratégicas em várias frentes para garantir sua influência – ou controle - sobre o petróleo brasileiro, utilizando inclusive seu poder diplomático-militar (extensão da OTAN ao Atlântico Sul) além de seu poder econômico e influência política-ideológica. Resta ao Brasil resistir e retomar seu projeto nacional desenvolvimentista, buscando romper definitivamente com os EUA e construir alianças com seus parceiros do BRICs, buscando inclusive apoio estratégico militar (e por que não, guarida?), uma vez que Rússia, Índia e China são potências nucleares. A desistência desta luta redundará na entrega definitiva do país aos EUA e UE e a consequente africanização de seu povo, ou seja: nós, os brasileiros.     



[1] “U.S. Naval Forces Central Command is responsible for approximately 2.5 million square miles of area including the Arabian Gulf, Gulf of Oman, North Arabian Sea, Gulf of Aden, and the Red Sea. The U.S. Naval Forces Central Command’s mission is to conduct maritime security operations, theater security cooperation efforts, and strengthen partner nations' maritime capabilities in order to promote security and stability in the U.S. 5th Fleet area of operations.”  Fonte: site da US Naval War College, acesso em: 20.mai.2016.

[2] Esta e outras informações sobre o pré-sal brasileiro podem ser encontradas no "diariodopresal.wordpress". Este blog está ligado ao ISAPE-Instituto Sul-Americano de política e estratégia, uma organização think-tank de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais, com sede em Porto Alegre/RS. 

[3] http://www.e-farsas.com/tres-investigadores-dos-ataques-de-1109-morreram-no-mesmo-dia.html 

[4] TURNER, Vice Admiral Stansfield, Missions of US Navy, Naval War College Review, Mar-Apr, 1974, Fonte: site da US Naval War College, acesso em: 20.mai.2016.

[5] MAHAN, Captain A. T. The influence of seapower upon History (1660-1783), Fonte: site da US Naval War College, acesso em: 20.mai.2016.