Quando criança eu, que tenho Leite no nome, passava em frente à fábrica da Petybon da Vila Romana com a minha avó para ir na casa da irmã dela, a Tia Nata - Fortunata de batismo, mas chamada carinhosamente de Nata e, curiosamente Nata como a nata de leite. Nessa caminhada, sempre tive vontade de comer os tijolos dessa parede, mas logo me continha, lembrando do que poderia acontecer com um garoto que ousasse violar a Fantástica fábrica de chocolate, como no sucesso televisivo da época, assistido à exaustão nas Sessões da Tarde de então. Tempos depois, como que numa profecia dada pelo meu nome lácteo, eu cresci e fui trabalhar na fábrica ao lado, passando todos os dias pelos tentadores tijolos encantados, mas agora já despido da inocência infantil. Eu ganhava a vida nesta vizinha fábrica, uma fábrica de desconhecidas peças para a indústria têxtil, umas coisas espinhosas, cortantes, que se colocavam em máquinas de fazer tecidos de roupas. Coisas muito úteis, mas completamente invisíveis aos olhos de todo mundo e, é claro, sem encanto algum. Essa fábrica era cinzenta e tinha um cheiro bem diferente do delicioso cheiro de chocolate da vizinha. Era a realidade, do trabalho, da vida, das pessoas, do início da vida adulta, do fim da infância. Foi ali, na Cardobrasil Ltda. que conheci algumas das melhores pessoas que conheci na minha vida, gente boa, trabalhadores, pais e mães de família, grandes amigos até hoje. Não fazíamos chocolate em uma fantástica fábrica de fantasia infantil, mas sim coisas úteis do mundo real dos adultos, coisas sem cor, sem cheiro bom e praticamente invisíveis. Éramos os Lumpa lumpas da vida real. Foi ali na adolescência que descobri que definitivamente não existiam estradas de tijolos amarelos, cidades das esmeraldas e tampouco tijolos encantados de chocolate. Foi ali que aprendi que para comer, não só chocolate, era preciso trabalhar duro. Hoje, como tudo nesse mundo que tem começo, meio e fim, não existe mais a fábrica cinzenta de peças úteis, assim como não mais existe também a deliciosa fábrica de chocolate de tijolos encantados. Ali hoje foram erguidas quatro torres de condomínio de luxo que chegam a tocar o céu. Alguns amigos dali também já não estão mais entre nós, certamente foram erguidos aos céus. Mas apesar da cor cinzenta e do cheiro nada agradável, a lembrança de tudo e, principalmente de todos, continua fresca e serena na minha memória, embalando a concretude da vida que segue - graças a Deus - com os indispensáveis sonhos e fantasias infantis perfumados com aquele eterno cheiro dos tijolos de chocolate encantados.

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