Às vésperas do Natal - aquela festa do bom velhinho barbado vestido de vermelho que furtivamente invade propriedades para distribuir mercadorias desejadas aos merecedores - houve um conflito insólito no contexto da bizarra guerra ideológica em pauta nesta nação. Partidários do fim do mundo (com borda de catupiry), os adoradores de pneu, ETs e outros seres míticos infames, surtaram com uma propaganda de chinelas, a qual, segundo uma interpretação enviesada, seria uma provocação à direita radical.
Então resolveram mutilar suas sandálias de forma agressiva (e hilária para nós, vacinados) e postar estes vídeos nas redes. Teve até vídeos do tipo storytelling, mostrando tal ato culminante, desde a compra de sandálias novas (já condenadas) para toda a familia. Houve ainda vídeos de pessoas pulando com a perna direita ao passar em frente às lojas da referida marca das chinelas, sob os olhares espantados (e risos) das pessoas não acometidas por essa doença mental, causa de tais assombros.
Enquanto isso, no mundo real, naquele mesmo dia, as ações da empresa dona da marca, despencaram na Bolsa. Não quero dizer com isso que o mundo do mercado financeiro seja real, ao contrário, mas isso é uma outra história. Pois bem, no dia seguinte, passada essa onda de imbecilidade, o mercado, que não é tonto, devolveu o valor às ações da gigante dos calçados, que subiram quase 9% em um dia de operações na Bolsa. Tal flutuação incomum é sempre bem aproveitada pelos ratos Farialimers sempre de plantão, que realizam a operação chamada Day Trade. Operação essa perfeitamente legal e que deixou em apenas um dia, alguns investidores $ 90 mil mais ricos a cada milhão investido nos títulos subvalorizados da empresa na véspera.
Dito isto, não deixa de ser intrigante como o sistema capitalista opera nos corações e mentes para, no final das contas, extrair valor não só do trabalho humano subvalorizado no processo produtivo (mais valia), mas cada vez mais, extrair valor da imbecilidade de um exército de zumbis que nem sonham que são apenas marionetes nas mãos de espertíssimos títeres.
A crise das chinelas revela que o fetiche da mercadoria, tão bem explicado pelo bom velhinho barbudo e de vermelho (não aquele do Natal, mas o outro) extrapolou a dimensão então analisada. A chinela passou a ser mercadoria objeto de desejo não para ser utilizada (ou até ostentada), mas para ser destruída, ou melhor, executada com requintes de crueldade! É como se tivesse vida! É como se começasse a dançar!
A ideologia burguesa dominante cooptou enorme parcela da classe média, ignorante, que fetichizou uma mercadoria, ressignificando-a simbolicamente para simplesmente executá-la em "praça pública", tal como uma herege dos tempos medievais, em um ato cego de fé (sim, teve vídeo com citação bíblica)...
Se estivesse entre nós, o bom velhinho, ou melhor, os dois bons velhinhos, ficariam confusos com essa situação.
Mas "ele não existe", como disse semana passada em sua defesa o Mao (não o Tse-Tung), mas o Mao, vocalista do Garotos Podres, na Delegacia onde foi chamado sob a acusação de sua música - de 40 anos - ter ofendido o... Papai Noel, velho batuta...
Enfim, o Brasil realmente não é para amadores.

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