quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

As fantásticas fábricas da aurora da minha vida


Quando criança eu, que tenho Leite no nome, passava em frente à fábrica da Petybon da Vila Romana com a minha avó para ir na casa da irmã dela, a Tia Nata - Fortunata de batismo, mas chamada carinhosamente de Nata e, curiosamente Nata como a nata de leite. Nessa caminhada, sempre tive vontade de comer os tijolos dessa parede, mas logo me continha, lembrando do que poderia acontecer com um garoto que ousasse violar a Fantástica fábrica de chocolate, como no sucesso televisivo da época, assistido à exaustão nas Sessões da Tarde de então. Tempos depois, como que numa profecia dada pelo meu nome lácteo, eu cresci e fui trabalhar na fábrica ao lado, passando todos os dias pelos tentadores tijolos encantados, mas agora já despido da inocência infantil. Eu ganhava a vida nesta vizinha fábrica, uma fábrica de desconhecidas peças para a indústria têxtil, umas coisas espinhosas, cortantes, que se colocavam em máquinas de fazer tecidos de roupas. Coisas muito úteis, mas completamente invisíveis aos olhos de todo mundo e, é claro, sem encanto algum. Essa fábrica era cinzenta e tinha um cheiro bem diferente do delicioso cheiro de chocolate da vizinha. Era a realidade, do trabalho, da vida, das pessoas, do início da vida adulta, do fim da infância. Foi ali, na Cardobrasil Ltda. que conheci algumas das melhores pessoas que conheci na minha vida, gente boa, trabalhadores, pais e mães de família, grandes amigos até hoje. Não fazíamos chocolate em uma fantástica fábrica de fantasia infantil, mas sim coisas úteis do mundo real dos adultos, coisas sem cor, sem cheiro bom e praticamente invisíveis. Éramos os Lumpa lumpas da vida real. Foi ali na adolescência que descobri que definitivamente não existiam estradas de tijolos amarelos, cidades das esmeraldas e tampouco tijolos encantados de chocolate. Foi ali que aprendi que para comer, não só chocolate, era preciso trabalhar duro. Hoje, como tudo nesse mundo que tem começo, meio e fim, não existe mais a fábrica cinzenta de peças úteis, assim como não mais existe também a deliciosa fábrica de chocolate de tijolos encantados. Ali hoje foram erguidas quatro torres de condomínio de luxo que chegam a tocar o céu. Alguns amigos dali também já não estão mais entre nós, certamente foram erguidos aos céus. Mas apesar da cor cinzenta e do cheiro nada agradável, a lembrança de tudo e, principalmente de todos, continua fresca e serena na minha memória, embalando a concretude da vida que segue - graças a Deus - com os indispensáveis sonhos e fantasias infantis perfumados com aquele eterno cheiro dos tijolos de chocolate encantados.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A crise das chinelas

Às vésperas do Natal - aquela festa do bom velhinho barbado vestido de vermelho que furtivamente invade propriedades para distribuir mercadorias desejadas aos merecedores - houve um conflito insólito no contexto da bizarra guerra ideológica em pauta nesta nação. Partidários do fim do mundo (com borda de catupiry), os adoradores de pneu, ETs e outros seres míticos infames, surtaram com uma propaganda de chinelas, a qual, segundo uma interpretação enviesada, seria uma provocação à direita radical. 

Então resolveram mutilar suas sandálias de forma agressiva (e hilária para nós, vacinados) e postar estes vídeos nas redes. Teve até vídeos do tipo storytelling, mostrando tal ato culminante, desde a compra de sandálias novas (já condenadas) para toda a familia. Houve ainda vídeos de pessoas pulando com a perna direita ao passar em frente às lojas da referida marca das chinelas, sob os olhares espantados (e risos) das pessoas não acometidas por essa doença mental, causa de tais assombros. 

Enquanto isso, no mundo real, naquele mesmo dia, as ações da empresa dona da marca, despencaram na Bolsa. Não quero dizer com isso que o mundo do mercado financeiro seja real, ao contrário, mas isso é uma outra história. Pois bem, no dia seguinte, passada essa onda de imbecilidade, o mercado, que não é tonto, devolveu o valor às ações da gigante dos calçados, que subiram quase 9% em um dia de operações na Bolsa. Tal flutuação incomum é sempre bem aproveitada pelos ratos Farialimers sempre de plantão, que realizam a operação chamada Day Trade. Operação essa perfeitamente legal e que deixou em apenas um dia, alguns investidores $ 90 mil mais ricos a cada milhão investido nos títulos subvalorizados da empresa na véspera. 

Dito isto, não deixa de ser intrigante como o sistema capitalista opera nos corações e mentes para, no final das contas, extrair valor não só do trabalho humano subvalorizado no processo produtivo (mais valia), mas cada vez mais, extrair valor da imbecilidade de um exército de zumbis que nem sonham que são apenas marionetes nas mãos de espertíssimos títeres. 

A crise das chinelas revela que o fetiche da mercadoria, tão bem explicado pelo bom velhinho barbudo e de vermelho (não aquele do Natal, mas o outro) extrapolou a dimensão então analisada. A chinela passou a ser mercadoria objeto de desejo não para ser utilizada (ou até ostentada), mas para ser destruída, ou melhor, executada com requintes de crueldade! É como se tivesse vida! É como se começasse a dançar!

A ideologia burguesa dominante cooptou enorme parcela da classe média, ignorante, que fetichizou uma mercadoria, ressignificando-a simbolicamente para simplesmente executá-la em "praça pública", tal como uma herege dos tempos medievais, em um ato cego de fé (sim, teve vídeo com citação bíblica)...

Se estivesse entre nós, o bom velhinho, ou melhor, os dois bons velhinhos, ficariam confusos com essa situação.

Mas "ele não existe", como disse semana passada em sua defesa o Mao (não o Tse-Tung), mas o Mao, vocalista do Garotos Podres, na Delegacia onde foi chamado sob a acusação de sua música - de 40 anos - ter ofendido o... Papai Noel, velho batuta...

Enfim, o Brasil realmente não é para amadores.