Quando criança eu, que tenho Leite no nome, passava em frente à fábrica da Petybon da Vila Romana com a minha avó para ir na casa da irmã dela, a Tia Nata - Fortunata de batismo, mas chamada carinhosamente de Nata e, curiosamente Nata como a nata de leite. Nessa caminhada, sempre tive vontade de comer os tijolos dessa parede, mas logo me continha, lembrando do que poderia acontecer com um garoto que ousasse violar a Fantástica fábrica de chocolate, como no sucesso televisivo da época, assistido à exaustão nas Sessões da Tarde de então. Tempos depois, como que numa profecia dada pelo meu nome lácteo, eu cresci e fui trabalhar na fábrica ao lado, passando todos os dias pelos tentadores tijolos encantados, mas agora já despido da inocência infantil. Eu ganhava a vida nesta vizinha fábrica, uma fábrica de desconhecidas peças para a indústria têxtil, umas coisas espinhosas, cortantes, que se colocavam em máquinas de fazer tecidos de roupas. Coisas muito úteis, mas completamente invisíveis aos olhos de todo mundo e, é claro, sem encanto algum. Essa fábrica era cinzenta e tinha um cheiro bem diferente do delicioso cheiro de chocolate da vizinha. Era a realidade, do trabalho, da vida, das pessoas, do início da vida adulta, do fim da infância. Foi ali, na Cardobrasil Ltda. que conheci algumas das melhores pessoas que conheci na minha vida, gente boa, trabalhadores, pais e mães de família, grandes amigos até hoje. Não fazíamos chocolate em uma fantástica fábrica de fantasia infantil, mas sim coisas úteis do mundo real dos adultos, coisas sem cor, sem cheiro bom e praticamente invisíveis. Éramos os Lumpa lumpas da vida real. Foi ali na adolescência que descobri que definitivamente não existiam estradas de tijolos amarelos, cidades das esmeraldas e tampouco tijolos encantados de chocolate. Foi ali que aprendi que para comer, não só chocolate, era preciso trabalhar duro. Hoje, como tudo nesse mundo que tem começo, meio e fim, não existe mais a fábrica cinzenta de peças úteis, assim como não mais existe também a deliciosa fábrica de chocolate de tijolos encantados. Ali hoje foram erguidas quatro torres de condomínio de luxo que chegam a tocar o céu. Alguns amigos dali também já não estão mais entre nós, certamente foram erguidos aos céus. Mas apesar da cor cinzenta e do cheiro nada agradável, a lembrança de tudo e, principalmente de todos, continua fresca e serena na minha memória, embalando a concretude da vida que segue - graças a Deus - com os indispensáveis sonhos e fantasias infantis perfumados com aquele eterno cheiro dos tijolos de chocolate encantados.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
A crise das chinelas
Às vésperas do Natal - aquela festa do bom velhinho barbado vestido de vermelho que furtivamente invade propriedades para distribuir mercadorias desejadas aos merecedores - houve um conflito insólito no contexto da bizarra guerra ideológica em pauta nesta nação. Partidários do fim do mundo (com borda de catupiry), os adoradores de pneu, ETs e outros seres míticos infames, surtaram com uma propaganda de chinelas, a qual, segundo uma interpretação enviesada, seria uma provocação à direita radical.
Então resolveram mutilar suas sandálias de forma agressiva (e hilária para nós, vacinados) e postar estes vídeos nas redes. Teve até vídeos do tipo storytelling, mostrando tal ato culminante, desde a compra de sandálias novas (já condenadas) para toda a familia. Houve ainda vídeos de pessoas pulando com a perna direita ao passar em frente às lojas da referida marca das chinelas, sob os olhares espantados (e risos) das pessoas não acometidas por essa doença mental, causa de tais assombros.
Enquanto isso, no mundo real, naquele mesmo dia, as ações da empresa dona da marca, despencaram na Bolsa. Não quero dizer com isso que o mundo do mercado financeiro seja real, ao contrário, mas isso é uma outra história. Pois bem, no dia seguinte, passada essa onda de imbecilidade, o mercado, que não é tonto, devolveu o valor às ações da gigante dos calçados, que subiram quase 9% em um dia de operações na Bolsa. Tal flutuação incomum é sempre bem aproveitada pelos ratos Farialimers sempre de plantão, que realizam a operação chamada Day Trade. Operação essa perfeitamente legal e que deixou em apenas um dia, alguns investidores $ 90 mil mais ricos a cada milhão investido nos títulos subvalorizados da empresa na véspera.
Dito isto, não deixa de ser intrigante como o sistema capitalista opera nos corações e mentes para, no final das contas, extrair valor não só do trabalho humano subvalorizado no processo produtivo (mais valia), mas cada vez mais, extrair valor da imbecilidade de um exército de zumbis que nem sonham que são apenas marionetes nas mãos de espertíssimos títeres.
A crise das chinelas revela que o fetiche da mercadoria, tão bem explicado pelo bom velhinho barbudo e de vermelho (não aquele do Natal, mas o outro) extrapolou a dimensão então analisada. A chinela passou a ser mercadoria objeto de desejo não para ser utilizada (ou até ostentada), mas para ser destruída, ou melhor, executada com requintes de crueldade! É como se tivesse vida! É como se começasse a dançar!
A ideologia burguesa dominante cooptou enorme parcela da classe média, ignorante, que fetichizou uma mercadoria, ressignificando-a simbolicamente para simplesmente executá-la em "praça pública", tal como uma herege dos tempos medievais, em um ato cego de fé (sim, teve vídeo com citação bíblica)...
Se estivesse entre nós, o bom velhinho, ou melhor, os dois bons velhinhos, ficariam confusos com essa situação.
Mas "ele não existe", como disse semana passada em sua defesa o Mao (não o Tse-Tung), mas o Mao, vocalista do Garotos Podres, na Delegacia onde foi chamado sob a acusação de sua música - de 40 anos - ter ofendido o... Papai Noel, velho batuta...
Enfim, o Brasil realmente não é para amadores.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2022
Sobre dancinhas e carne com ouro no Catar.
Competência, competição, mérito, trabalho, recompensa e consumo. Estes são os valores centrais do capitalismo.
O sistema precisa a todo momento reafirmar a sua ideologia a fim de conquistar e manter milhões de corações e mentes presas a seus valores para, dessa forma, continuar gerando lucro para os donos do capital.
Para tanto, nada melhor que jovens garotos propaganda que corporificam tais valores de forma natural e os disseminam na audiência global por meio de um torneio esportivo mundial.
Entre estes jovens há também alguns mais idosos, muitos negros e alguns homoafetivos. Tudo muito adequado à propagação de uma ideologia pretensamente democrática e liberal, que não impede a ascenção de minorias aos poncaros da glória, fama e poder que só o dinheiro, suado e merecido pelo esforço do trabalho competente pode oferecer em um sistema competitivo, meritocrático e justo, que é como o capitalismo se esforça para se demonstrar.
A Copa do Mundo e as Olimpíadas são os outdoors máximos do capitalismo. São mega campanhas bienais que encantam bilhões almas que colocam seus braços e cérebros à postos para movimentar a fábrica do patrão chamado Capital. A Eurocopa, a F1, o UFC, e todas as outras modalidades esportivas globais e também todas as locais, como o Paulista, o Brasileirão, a Copinha, reforçam anualmente a necessária propaganda do sistema; que se reproduz também no interclasse da escola das crianças e no rachão do campinho da vila.
Os atletas globais são os gladiadores master nos seus respectivos circos. Se esforçam, treinam, se superam de lesões, alguns até morrem em campo, como o Ayrton. São heróis, mártires, exemplos a serem seguidos pelos milhões de garotos e garotas em todo canto do planeta. E pelos adultos também, principalmente os adultos infantilizados, que são a esmagadora maioria.
Os atletas ganham muito bem para executarem essa importante função. Na verdade, nem sabem (e é bom que nem saibam mesmo) que a executam. E, é claro, gastam também bastante, e de forma exagerada - claro, exagerada pelos parâmetros modestos dos bilhões de mortais que os glorificam. Sim, eles ostentam sua glória. Afinal, sofreram muito para "chegar lá". Às vezes são debochados, insensiveis ou até mesmo desrespeitosos com o sofrimento alheio. Mas, e daí? "Faça os seus corre. Eu suei muito pra chegar onde estou. Se eu consegui, vc tb consegue". Essa é a mensagem de toda a propaganda capitalista.
E ela cola! As pessoas realmente valorizam as conquistas dos seus mitos e acreditam que podem conseguir também, desde que trilhem a árdua jornada do seu herói. Jornada essa sempre bastante conhecida, contada e recontada nos botecos, reproduzidas e complementadas a partir da mesma fonte, a mesma mídia, que é claro, também executa o seu papel fundamental. São mantras sagrados do sucesso. A estrada dos tijolos dourados é cheia de percalços e, no fim, o Mágico de OZ lhe dirá que seu sucesso do depende de você mesmo. Você S/A.
Por tudo isso, eu não posso concordar com os discursos que pretendem crucificar o comportamento destes garotos propaganda globais, de origem humilde e ora bem sucedidos.
Se fazem dancinhas debochadas ou se comem carne com ouro no Catar, isso é um comportamento normal destes ícones no contexto deste sistema.
O que deveria ser alvo de críticas é exatamente o próprio sistema capitalista, deplorável e desumano.
Esse mesmo sistema que cria e alimenta uma esquerda inofensiva, pulverizada, desunida, desfocada, cosmeticamente raivosa e muito, mas muito despreparada intelectualmente. Uma esquerda que se vangloria de ser diversa, de ser "as esquerdas", quando na verdade é exatamente essa a sua maior fraqueza. Onde estão os líderes dessa galerinha que, quando não está fazendo ciranda em prol dos direitos da baleia azul ou do banheiro escolar unissex, perde tempo e energia atacando os espantalhos (sem cérebro) do sistema, quando deveria mesmo era se juntar para derrubar o charlatão do Mágico de OZ.
Portanto, deixem os meninos em paz. E vamos fazer a revolução! Que tal? Alguém aí topa?
... Hello?
quinta-feira, 1 de julho de 2021
A bibliotecária, o menino e o seu dedão.
Contava os 11 anos quando, numa bela tarde, fui obrigado a abandonar a pelada no asfalto com os amigos da rua e fui para casa manquitolando, com a tampa do dedão aberta por aquela bola dividida com o Carlinhos. No caminho de casa havia, ou melhor, há até hoje, uma Biblioteca infanto-juvenil Municipal. Sentei-me na escadinha, bem na porta da biblioteca, a fim de ajeitar o dedão sanguinolento para a árdua jornada de quatro quadras até minha casa. Então surgiu por detrás dos meus ombros uma figura que acabou se tornando alguém muito especial para mim. Era uma senhora baixinha e simpática, que, apoiada em duas muletas, abriu um largo sorriso e me perguntou carinhosamente:
- Olá menino, o que houve? posso ajudar? Eu me chamo Leila. Qual o seu nome?
- Oi Sra! Obrigado! Eu me machuquei jogando bola. Me chamo Márcio - respondi.
- Venha para dentro Márcio e vamos colocar Merthiolate e um curativo aí nesse dedão, tá?
Curiosamente, pela primeira vez em 12 anos eu não fugi do Merthiolate. Sempre havia preferido o risco de uma infecção gangrenosa ao ardor passageiro daquele antisséptico tenebroso. Também não fugi daquele espaço – cheio de livros, que lembravam a escola… aaargh! - que estava prestes a adentrar. Na verdade, a dor no dedão e a generosidade daquela Sra. me cegaram para este pequeno detalhe: estava entrando em uma biblioteca!
Enquanto a D. Leila, a bibliotecária, fazia um curativo no meu dedão, eu comecei a ler um dos livros que estava sobre sua mesa. Era "O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas. Ao tempo de finalizar o curativo eu já havia lido umas 10 páginas daquele livrão que parecia uma Bíblia de tão grosso. Eu nunca havia me atrevido a ler um livro daquele tipo. um livro tão grande... e só de letras!
Percebendo meu interesse naquela leitura, D. Leila me disse que eu poderia levar o livro, mesmo sem ter a carteirinha da Biblioteca, mas com a condição de voltar no dia seguinte para fazê-la e dessa forma me tornar sócio. Sócio! Veja só: eu seria sócio de uma biblioteca!
Pra resumir o enredo, a partir daquele tarde eu passei quase todas as tardes dos próximos 2 anos lendo os livros daquelas prateleiras, que se tornaram mágicas para mim. E me lembro com muito carinho dos momentos que passei ouvindo as histórias contadas pela D. Leila nos momentos em que ela, percebendo minha avidez em escolher o próximo livro, aliada à minha inorância de leitor iniciante, vinha me contar alguma história, de cabeça: Dorothy, Alice, Capitão Flint, Capitão Aab, Capitão Nemo, Dom Quixote, Sanho Pança, Jean Valjean, Dartagnan, Hercule Poirot, Dr. Jeckil, Dr. Frankenstein. Eram tantas histórias, tantos personagens mágicos… eram doces drops da literatura universal, trailers de aventuras sem fim que atiçavam ainda mais minha vontade de ler.
D. Leila se esforçava bastante para alcançar certos livros nas prateleiras mais altas, já que era PcD. Ela havia sido uma vítima da poliomielite que, em sua época de infância, fez milhares de brasileirinhos sofrer com esse mal, que poderia ter sido facilmente evitado pela ação eficaz do governo nas áreas de saúde e educação. Eu trepava na cadeira para pegar aqueles livros indicados por ela para depois ficarmos ali, durante algumas horas, cada um lendo o seu livro, no silêncio daquelas tardes distantes naquele templo do saber.
Enfim, foi ali também que conheci Orwell, Huxley, Morus, Goethe, Kafka, Hemingway, Tolstoy, Cervantes, Dante... e Marx, Aristóteles, Maquiavel, Rousseau, Montesquieu, Camus, Sartre, Nietzsche, Pessoa, Machado...
Enfim, essa é a história de um dedão arrebentado que, tratado com amor e carinho por alguém que fazia muito mais do que sua rotina de cartório, acabou por criar um leitor compulsivo e um professor apaixonado.
Onde quer que esteja, obrigado D. Leila.
domingo, 17 de março de 2019
História descomplicada
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-47577118
domingo, 26 de novembro de 2017
E educação pública de São Paulo na UTI
Creio que não. Mas essa é apenas uma reflexão que precisaria de dados consistentes para ser melhor fundamentada e exposta. Por ora, deixemo-la de lado, deixando de lado também os números de professores licenciados por outros motivos que não sejam médicos, como aqueles que se licenciaram sem vencimentos (pela 202), muitos por stress e cansaço físico e emocional, que escolheram "dar um tempo" na carreira para repensar se tudo isso vale a pena mesmo... e voltemos à análise daquilo que traz a notícia do início desta semana.
terça-feira, 7 de março de 2017
Capoeira e Pixo: duas artes, a mesma história.
Mas a capoeira é uma prática social que
nasceu da real necessidade de uma população oprimida e explorada, em defesa a
essa opressão. Uma opressão que vem se efetivando desde o plano material,
físico, quanto no plano cultural, simbólico. Mas a pequena parcela da população
que então dominava as dimensões políticas e econômicas da sociedade, em certa
medida, não resistiu em manter seu projeto de repressão e eliminação dessa
manifestação popular genuinamente preta que, ao contrário do esperado pela
elite, só ganhava força na medida em que era violentamente reprimida. Foi um
conflito incendiário, abastecido com a lenha do descaso do governo com a real
situação social dos capoeiras, os negros brasileiros do início do século XX,
brutalizados pela sociedade brasileira republicana.
Agora, grafite e pixo são a mesma
coisa? Os grafiteiros são pichadores. Até bem pouco tempo grafite e pichação
eram criminalizados da mesma forma. Em função de um movimento ideológico
promovido pelas elites, de diferenciação cultural entre pixo e grafite,
iniciou-se um processo de aceitação social da modalidade então denominada de
grafite e criminalização do pixo. O grafite foi “elevado” a categoria de arte
enquanto o pixo continuou sendo criminalizado. Assim como o rap ácido de
Sabotage - assassinado por traficantes - hoje se tornou um produto caro e bem
pago pela indústria cultural, o hip hop, o break, a street dance, são expressões
culturais conhecidas como arte de rua ou arte urbana. O pixo é o grito de
rebeldia e de socorro de uma juventude excluída, que ali encontra um dos únicos
canais de afirmação de sua identidade, deteriorada pela sociedade que os exclui
e insiste em confina-los, cada vez mais, nos guetos, nos espaços de convivência
periféricos e desvalorizados socialmente. É o grito de socorro de quem permanece
invisível – a não ser nas estatísticas policiais – e se esforça para se fazer
perceber na sociedade que tem (e dá) valor.





